31 agosto, 2010

De confortar

Eu ainda tinha tantas coisas para dizer... Embora não tivesse dito nada. Fazia tempo a vontade de libertar todas as palavras boas e as de admiração. Queria dizer que aquilo tudo ia passar, que com certeza ia passar. Mas a porta se fechou. Naquele dia, e nos dias seguintes. Também hoje.

Faltou coragem, um pé na porta. Não o que arromba, mas o que apenas impede que a porta se feche. Então, mostrar que eu estava ali e que acima de todos nós, Deus.

Agora fico aqui escrevendo, porque não pude falar o que meu coração produziu tão cuidadosamente para confortar - a lágrima de quem eu gosto me entristece.

Admito. Talvez, mesmo com a porta aberta, não conseguisse dizer... Sei que olharia nos olhos, traduzindo um cais para quem precisa descansar das intempéries do mar. Mesmo que fosse um cais de segundos.


Ingrid Dragone

06 agosto, 2010

Quem tem boca (vai a Roma) muda a língua portuguesa

Na época da faculdade de Letras, eu fazia uma disciplina que tratava da variabilidade linguística. Durante as aulas, discutíamos a língua portuguesa cotidiana, as mudanças que acontecem nos vocábulos e nas expressões devido ao uso comum. Era bem interessante, porque descobríamos o motivo de várias alterações e novos usos. A maior parte dessas mudanças tem a ver com a “economia de palavras” e com um processo semelhante àquela brincadeira do “telefone sem fio”, ou seja, uma frase/expressão passa de um para outro e acaba sendo transformada, adquirindo outro sentido.

Essa semana recebi um e-mail mostrando as mudanças que ocorreram em algumas expressões que os brasileiros costumam usar. E, como amo essas curiosidades, resolvi dividir o conteúdo com vocês.

1. “Hoje é domingo, pé-de-cachimbo”: Imagine aí? Um pé-de-cachimbo seria uma planta alta? Cheia de cachimbos pendurados? O certo é: “Hoje é domingo, pede cachimbo”. “Pede” do verbo “pedir”. Domingo é um dia de descanso e fumar um cachimbo seria, no dito popular, uma forma de relaxar.

2. “Esse menino não pára quieto, parece que tem bicho carpinteiro”: Que bicho seria esse? Uma espécie de cupim? O certo é: “Esse menino não pára quieto, parece que tem bicho no corpo inteiro”. Aaaaaaah!!!

3. “Batatinha quando nasce, esparrama pelo chão”: Minha irmã tinha até uma boneca que falava isso (“Poeminha” era o nome dela). Pois é, o fabricante da boneca e toda a torcida do flamengo estão enganados! O certo é: “Batatinha quando nasce, espalha a rama pelo chão”. É lógico, inclusive, pois a batata é uma raiz. A ramagem da batata se espalha, não a batata, que fica embaixo da terra. Dã!!!

4. “Cor de burro quando foge”: Essa cor seria um tipo de marrom sem graça? Bem, foi o que sempre soube. Que cor ficaria um burro ao fugir? O certo é: “Corro de burro quando foge”. Pense na visão do inferno? Um burro fugindo, em sua direção? Você correria?

5. “Quem tem boca vai a Roma”: Ah, vai!!! Quem se comunica consegue chegar longe, onde quiser, não é?! Todo mundo fala assim! Pois todo mundo está errando!!! O certo é: “Quem tem boca vaia Roma”. “Vaia” do verbo “vaiar”. Na época da Roma antiga, todos os que queriam demonstrar descontentamento com o governo romano só podiam vaiar. O ditado quer dizer que quem não gosta, arruma um jeito de mostrar que não gostou.

6. “Cuspido e escarrado”: As pessoas usam quando querem dizer que alguém é a cara de outro. Normal, né? O correto é: “Esculpido em carrara”. Carrara é um tipo de mármore. Eu já havia escutado também a versão “esculpido e encarnado”.