20 maio, 2010

Silêncio

Finalmente pôde abrir a porta e arriar a mala no chão. Não conseguia deixar de ouvir o som da máquina de fotocópia do escritório. O equipamento havia trabalhado quase que ininterruptamente durante as duas horas que antecederam o final do expediente. O ruído sistemático ecoava em sua lembrança. Maldito som.

Não tinha forças para desamarrar os cadarços. Jogou o corpo sobre a poltrona e ficou olhando para o aquário. Olhava, mas não via os peixes fazendo lá seus movimentos em busca dos escassos farelos de comida. Não tinha forças para folgar o nó da gravata e o barulho da máquina de xerox continuava pregado em cada um dos seus pensamentos vazios.

Também não adormecia. E depois de alguns minutos, talvez vinte, nada mais ouvia. Silêncio nos cômodos da casa, na rua, na vizinhança. Absoluto silêncio. Silêncio sem precedentes.

Aquela falta de ruídos crescia dentro dele e o tomava de uma estranha inquietação. O silêncio alastrava-se e era um incômodo desmedido. Antagonia. E agora suas ideias vinham à tona. Uma a uma. Clientes, amigos, familiares e ex-namoradas vinham à sua mente combinados a cenas dantescas de assassinato, assédio sexual e tortura.

Correu. Abriu as torneiras, ligou a televisão, o liquidificador, a batedeira, a máquina de lavar roupas e o secador de cabelos. Voltou para a poltrona. Sorriu. Era um profissional respeitado e tinha boa índole.



Ingrid Dragone

2 comentários:

marianamiranda disse...

Bom texto!

INGRID DRAGONE disse...

Obrigada, Mariana!