20 maio, 2010

Silêncio

Finalmente pôde abrir a porta e arriar a mala no chão. Não conseguia deixar de ouvir o som da máquina de fotocópia do escritório. O equipamento havia trabalhado quase que ininterruptamente durante as duas horas que antecederam o final do expediente. O ruído sistemático ecoava em sua lembrança. Maldito som.

Não tinha forças para desamarrar os cadarços. Jogou o corpo sobre a poltrona e ficou olhando para o aquário. Olhava, mas não via os peixes fazendo lá seus movimentos em busca dos escassos farelos de comida. Não tinha forças para folgar o nó da gravata e o barulho da máquina de xerox continuava pregado em cada um dos seus pensamentos vazios.

Também não adormecia. E depois de alguns minutos, talvez vinte, nada mais ouvia. Silêncio nos cômodos da casa, na rua, na vizinhança. Absoluto silêncio. Silêncio sem precedentes.

Aquela falta de ruídos crescia dentro dele e o tomava de uma estranha inquietação. O silêncio alastrava-se e era um incômodo desmedido. Antagonia. E agora suas ideias vinham à tona. Uma a uma. Clientes, amigos, familiares e ex-namoradas vinham à sua mente combinados a cenas dantescas de assassinato, assédio sexual e tortura.

Correu. Abriu as torneiras, ligou a televisão, o liquidificador, a batedeira, a máquina de lavar roupas e o secador de cabelos. Voltou para a poltrona. Sorriu. Era um profissional respeitado e tinha boa índole.



Ingrid Dragone

17 maio, 2010

O valor das coisas

Na semana passada, quando ia para o trabalho, fui tomada por uma emoção inesperada. Estava dirigindo pelo caminho de sempre, mas avistei um céu como há tempos não acontecia. Senti a presença de Deus muito forte e meu coração se encheu de felicidade. Comecei a agradecer por mais um dia de vida, por ter acordado com saúde, por ter um emprego digno. Esse sentimento de gratidão me levou a refletir, principalmente sobre o valor que às vezes atribuímos a coisas que não têm valor algum.

Na mesma semana recebi um e-mail falando sobre a infância das pessoas que nasceram nos anos 70 e 80. O texto dizia que as crianças daquelas décadas não tinham celular, Playstation, Orkut, Twiter, MSN, e se divertiam. As brincadeiras eram mais saudáveis, integravam e rendiam centenas de histórias para contar.

Do que precisávamos naquela época? Da companhia dos nossos amigos.

Dias depois recebi um e-mail que divulgava o projeto “Doe Palavras”. Trata-se de uma iniciativa do Hospital Mário Penna (BH), que cuida de pacientes com câncer. Basta que as pessoas acessem o site WWW.doepalavras.com.br e escrevam uma breve mensagem de otimismo. Essas frases aparecem num telão para os pacientes em tratamento.

Do que essas pessoas precisam nesse momento? Fé, conforto e esperança.

Bem, minhas ideias parecem estar meio desconectadas aqui - estou bastante cansada agora -, mas quero só dizer que continuo refletindo sobre o valor das coisas...