16 abril, 2010

A roda da vida

A roda da vida vai rodando incessantemente. Não espera que você calce os sapatos, que você vá à padaria, que você leia o jornal, que você o peça para esperar. O tempo desprende-se como a areia que dá função às ampulhetas, sem que ninguém sinta o atrito da sua passagem. O tempo anda ao ritmo dele - depressa para o ocupado, devagar para quem sente saudade -, e passa. Passa como a paisagem avistada do trem.

A roda da vida vai rodando incessantemente. Sua engrenagem não enferruja, não quebra, não desacelera. E a fotografia no porta retrato, aquela que você vê ao acordar, era você hoje, mas já é você muitos anos depois. Cinco anos podem ter passado... e você fez tantas coisas e deixou tantas outras para mais tarde, por falta de tempo (?).Os ponteiros correm sobre os números e janeiro já é junho, sem que você tenha concluído, ou mesmo dado início às tarefas anotadas na agenda.

O relógio está em seu pulso, nas paredes, na cabeceira da cama, no painel do automóvel, na tela do computador, nas praças, no celular que você atende para confirmar o horário do próximo compromisso. O relógio está em todo lugar, mas você entra e é sol, e você sai e é escuro, e você nem percebeu. Outro dia do calendário se foi, com cada um dos seus segundos irrecuperáveis, e você dorme sem saber se amanhã vai dar tempo.

(Você nem lembra o que vestiu ontem, porque estava atrasado e pegou a primeira roupa que viu no cabideiro. E anteontem você buscou um passatempo, porque era domingo).

O tempo corre como um atleta experiente sobre a esteira rolante indefectível. Suas pernas não são compridas. Nem curtas. Seus passos são iguais desde o início dos tempos. Ele não vacila. Não tropeça. Não retarda por não saber como seguir. A roda da vida vai rodando incessantemente. Não meça, viva.

E recorde.




Ingrid Dragone

11 abril, 2010

Por que...

... tenho que dizer que amei o filme Avatar? Sinceramente, vi o que esperava, nada mais, nada menos. Sabia que seria muita imagem e conteúdo clichê. A profusão de efeitos especiais é interessante - o cenário criado é bonito, não se pode negar –, mas trata-se da história de Pocahontas repaginada!!!

... tantos jovens continuam usando as tais “pulseirinhas do sexo”? Mesmo com a divulgação de vários casos em que elas estimularam a violência sexual? Os pais devem estar atentos!

... tem gente comemorando a chuva? Sabemos que o calor está terrível em Salvador – só para registrar, sou a fã número 1 dos aparelhos de ar condicionado -, mas quantas casas desabam quando a água desce? E ninguém venha me dizer que as pessoas vitimadas têm culpa. Certo, construíram suas moradias em áreas de risco. E tinham mesmo quais opções? Morar nas encostas, e até em cima de lixões, como se viu no Rio de Janeiro, ou nas ruas. E aí?

... essa mania de ouvir Lady Gaga em tudo quanto é lugar? É verdade que a sua excentricidade chama um pouco a atenção, mas entendo que ela é uma nova versão de Madonna, que no auge da carreira também chocou com suas músicas, coreografias eróticas e roupas estranhas. Quem não se lembra dos sutiãs em forma de cone? Dos crucifixos em contraste com o comportamento pervertido?

... as pessoas adicionam as outras no orkut e quando se batem com elas por aí fingem não conhecê-las? Acho que a lista grande de amigos no orkut é para ganhar comentários nas fotos e acumular estrelinhas de fãs.

... é necessário atender o celular na hora do almoço ou no cinema? Por que temos que ser encontrados em todos os momentos da nossa vida? Até no descanso? Hoje em dia até parece que é charmoso não ter tempo para comer em paz! Não estou levantando uma bandeira contra os celulares, eles facilitam muito a rotina diária (eu, por exemplo, jornalista, como ficaria sem o meu?), mas tento ser guiada pela sensatez. Quando ele chama, EU estou no controle! Ah! E ainda bem que existe o identificador de chamadas (piada interna).

06 abril, 2010

Um caso Isabella

Gritos, mãos lançadas ao alto e fogos de artifício. Poderia ser a comemoração pelo placar de um jogo de futebol, mas foi a manifestação dos brasileiros diante do resultado de um dos julgamentos mais esperados do país. Finalmente o casal Nardoni foi condenado pelo assassinato da menina Isabella. E o motivo de tamanho contentamento?

O crime e as circunstâncias que o envolvem estiveram durante meses em nossos pensamentos, diante dos nossos olhos, às mesas, nas conversas de escritório e de bar. A mídia, diversas vezes criticada pela insistência no assunto, criou uma comoção nacional em torno da tragédia. Era impossível nos desligarmos. De alguma forma, enxergávamos naquela criança um pouco de cada uma das crianças que conhecemos, sentíamos a dor daquela mãe e, sem termos dúvidas sobre a culpa dos acusados, até especulávamos sobre como eles imaginavam a sua vida a partir dali – não porque estivessem arrependidos pela morte da menina, mas pelo problema que criaram para si mesmos.

Nossos corações estavam incomodados e a justiça era uma maneira de minimizar um pouco a indignação. E agora, com a sentença proferida, nos resta acompanhar os assassinos saírem da cadeia em pouco tempo? Sabemos como são as leis por aqui...

E também sabemos que pessoas morrem todos os dias. A todo tempo. Em todo lugar. Muitos crimes ficam sem solução. Muita gente, impune. Muitos casos acontecem nos confins do mundo, onde não há televisão ou jornal, onde não existe, sequer, lei ou quem julgue os criminosos. Quantas Isabellas já tiveram a vida ceifada pelas mãos de seus próprios pais? Vigiemos nossos passos, nossas aflições.


Ingrid Dragone