01 setembro, 2009

Repercutindo o “Todo Enfiado”

A Bahia inteira, gente em todo país e até em outros países tem acompanhado a história da professora que caiu no You Tube após ter sua performance filmada num show dançando a pérola “Todo Enfiado”. Não quero discutir aqui se a professora, agora demitida, ganhou fama – e pode ser chamada para fazer algum tipo de “trabalho” por conta desse episódio, como já ouvi muitos especulando -, ou se o vídeo divulgado vem sendo incontáveis vezes acessado pelos internautas por curiosidade ou por mera diversão. Há outros aspectos mais interessantes em torno do fato.

Em primeiro lugar, as imagens refletem não só um momento descontraído e, digamos, de lazer de uma pessoa, mas representam a banalização da sexualidade, assim como acontece também em muitos bailes funk do Rio de Janeiro. Os jovens estão crescendo achando que é natural ser promíscuo e exibir essa promiscuidade. Às vezes me pergunto o que será das próximas gerações... Basta ver no Orkut quantas meninas exibem o corpo em fotografias apelativas, vendendo uma figura de “fêmea fatal” para qualquer usuário da rede.

Em segundo lugar, e ligada à questão acima, está a vulgarização a que as mulheres tem se sujeitado. A liberdade sexual chegou para prender? Para tornar o sexo feminino preso/atrelado à condição de objeto? Muitas se queixam de que os homens não querem compromisso sério, não tem respeito, só querem transar. Na sociedade ainda machista em que vivemos eles são comumente criados para ser “pegadores”; imaginemos, então, a consequência disso quando boa parte das mulheres passa a apresentar um comportamento “moderno”, de "iniciativa". Os homens acabam por generalizar e acreditar que todas são assim, “modernas”.

Em terceiro lugar, o momento é uma oportunidade para falarmos sobre a decadência da produção musical no Brasil. Há quem defenda a música do gueto, do povão que encontra nesse tipo de cultura a válvula de escape para os problemas do dia a dia. Arte é catarse, leva à reflexão, à instrução e, claro, ao deleite também, mas não deseduca.

Em quarto lugar, é bom tomar cuidado: estamos experimentando a era do Big Brother. Em qualquer lugar, a qualquer momento, podemos ser filmados por celulares, aparelhos acessíveis a todos. Obviamente o vídeo que ensejou esse texto foi feito com conhecimento da atriz principal, mas podemos aproveitar o fato para pensar na utilização dos recursos que desenvolvemos. Criaturas podem destruir os seus criadores? Nesse caso, acabar com a privacidade e a espontaneidade?

Em quinto lugar, tenho só mais uma coisa a dizer. A memória do brasileiro é curta. Logo esqueceremos o desempenho “Todo Enfiado” da professora e os desdobramentos disso. E do jeito que caminha a humanidade, teremos, com certeza, muitos outros motivos para repetir a frase dos nossos avós: “o mundo está perdido”.



Ingrid Dragone

13 comentários:

Gabi Vasconcellos disse...

É isso mesmo Ingrid, o mundo está perdido!
Adoro ler os seus comentários, seu blog me inspira a continuar com o meu.
Beijão!

INGRID DRAGONE disse...

Fico feliz por isso, Gabi! bj.

Carilho-amigo-de-jonas disse...

Se há alguém habituado à acusação de elitista cultural, certamente sou eu. E meu estômago - o órgão crítico por excelência - nunca aceitou bem o funk, até o dia em que me resignei a ouvi-lo com atenção. Cheguei à seguinte conclusão provisória: esperar rasgos de lirismo de gente bestializada pela miséria e pela violência seria exigência tão exagerada que deveríamos antes nos perguntar se os versos que cantamos em nossa língua ou em inglês são mesmo tão elaborados.
Além disso, temos "a história na mão" pra lembrar que o blues, o maxixe e o samba já foram caso de polícia, também. Por isso, sem intenção de contestar ou concordar com seu texto, faço este comentário paralelo: a sonoridade do funk é forte e expressiva; apenas não nasceram ainda seus poetas, o que decerto ocorrerá.

Outro comentário que me permito, pois sendo amigo de Jonas tenho livre acesso a este blog, e moral :)é uma ressalva: talvez o brasileiro não tenha boa memória histórica, pois não tem, a rigor, escolas, mas aqui o foco deve ser outro, suponho: esta é uma sociedade dos espetáculos banais e passageiros, e isso em todo mundo. Um terremoto que mate cem mil na China só tem graça enquanto um episódio cômico como o da professora não lhe toma lugar na pauta das conversas.
Outro ponto a considerar é ser a estrela/vítima uma professora. Completamente descontentes com a inexistência de escolas em nosso país, agimos como vítimas de um desastre recente, caçando algozes. Se a professora rebola, para muitos (que não estudaram) isso vale como prova de que nossa escola não existe porque as professoras rebolam.
No mais, admiro e me identifico com seu modo de apreciar vários aspectos de um mesmo tema.

Amanda disse...

Fiquei pasma com esse episódio, ainda mais depois de ter visto a entrevista da professora, e as pessoas defendendo: ela faz o que quiser, estava se divertindo e fora do horário de trabalho. Mas ela não tem uma filha? E deveria se lembrar de ser mãe, pelo menos 24 horas por dia!

Fico com medo do que será natural daqui alguns anos.

INGRID DRAGONE disse...

Amanda, também me preocupo com o que será...

INGRID DRAGONE disse...

"Amigo de Jonas", concordo com vc quanto à força do funk e realmente gostaria que ele fosse usado de outra maneira, pois, como bailarina, tenho que admitir que adoro o ritmo. E também concordo qd vc critica a educação no Brasil e fico feliz que tenha entrado ainda mais nesse mérito, pois se fosse aprofundar todos os aspectos levantados no meu texto, teria de fazer um blog inteiro só pra isso.Obrigada pela visita! Volte sempre!!! Tem um blog??? rs Se não tem, deveria.

INGRID DRAGONE disse...

Esse comentário foi feito pelo meu parceiro de trabalho e competente publicitário Sylvio Lyra. Mas como ele me mandou por e-mail, vou postar por ele aqui. Da próxima vez, Sylvinho, manda pra cá! rs.

"Lindinha,
Tenho cada vez mais admiração pelos seus textos.
Tem gente que nasce com facilidade de se expressar, e outros com a capacidade de expressar o que a sociedade da sua época sente... isso é escrever de verdade (ou será com verdade?).
Mais uma vez parabéns. Quando crescer quero ser igual a você! kkkkkkkkk.... é sério!
Bjim."

Daniel Queiroz disse...

Indi, segundo Pati, o que vou falar é marmelada! Mas não é! ehhe
É incrível como você percebe tantos detalhes numa situação. Eu não tinha pensado nisso. Só vi uma mulher bêbada (ou não), expressando o que ela é. Concordo com todos os aspectos que você levantou no texto e acho que a humanidade está cada vez mais promiscua, porém, tenho que defender a raça masculina. O que um cara vai querer com uma mulher desse nível? Nada! No máximo uma noite. E ele está certo! Apesar de o número de mulheres direitas estar diminuindo, sabemos que elas existem e são essas que os homens valorizam e querem estar junto. Em relação à musica, outra coisa que não posso deixar de comentar, concordo plenamente que o funk não traz nada de bom. Apesar de ter uma forte aceitação da massa, não tem letra, não tem melodia, não tem uma harmonia bem trabalhada.
Bem, não vou mais escrever porque vc tá querendo dormir! hahaha
Bjão
Te amo

INGRID DRAGONE disse...

Dan, poderia te dizer uma série de coisas, mas só vou agradecer pelo seu apoio constante e por acompanhar o que faço, seja na minha profissão ou vida pessoal. Amo você.

milene disse...

Ingrid resumindo tudo esta pessoa queria apenas ibope e para quem não tem o que fazer, com o que se preocupar ou mesmo não ter interesse nas opções que a TV oferece são os que dão ''este ibope'' Acredite isso repercutiu em outras redes também e a baianinha simplesmente estar viajando muito, ganhando roupas, sapatos, um toque de beleza e tudo mais além de dinheiro...ela estar amando tudo isso e sinceramente é revoltante pois com tantas outras coisas importantes a serem debatidos nesses veículos de comunicação infelizmente tem algum deles que preferem partir para apelação e assim ganhar um pouco de audiência.

Beijoks minha Flor sucesso sempre!!! seu blog é show de bola adorei as dicas rsr!

INGRID DRAGONE disse...

Valeu, Mile! Adorei sua visita! volte sempre!!!

Anônimo disse...

Seu texto está muito bem escrito e os argumentos são muito coerentes com o que você acredita.
No entanto, fico um pouco incomodada com o constante apedrejamento da mulher – sempre me pego com a música de Chico na cabeça: “Joga a pedra na Geni”...
As pessoas não cansam de falar sobre essa professora, mas esquecem que, mais ou menos na mesma semana, um jornal mostrou um procurador completamente bêbado e ameaçando policias. Alguém sabe o resultado disso? Ao ser entrevistado, já em seu escritório, o homem pediu desculpas e o jornalista disse que provavelmente ele perderia a carteira de motorista. Fim.
Agora, quem não sabe o que houve com a tal professora? Todos ficam felizes ao espalhar – de forma incorreta – que ela foi demitida. Também sentem-se aliviados ao espalhar a boa nova de que a mulher virou dançarina do grupo, o que deve comprovar que ela é uma depravada. Também aproveito para lembrar que, na época do escândalo de Daniela Cicarele, ninguém fazia um simples comentário sobre o namorado na apresentadora, mas foram incontáveis o número de e-mails com palavras chulas para qualificar a coitada.
Se o mundo anda perdido por causa do comportamento promíscuo das mulheres, eu queria dizer que o homem começou esse histórico e que só ganhou palavras de incentivo por isso. Também queria aqui informar que o problema é não agir eticamente, ao enganar alguém, de resto, tudo deveria ser válido.
Acredito muito na liberdade de encontrar a sua forma de viver e amar. Penso que a mulher tem o direito de fazer sexo casual (uma experiência incrivelmente libertadora) e conhecer uma forma diferente de se relacionar, depois encontrar – ou não – alguém para dividir a vida. O bom é se permitir, é não se escravizar em salões de beleza nem se punir por não querer ter um cabelo escovado e pintado ou uma unha feita. Ruim é ver as meninas de 11 anos seguindo padrões violentos de beleza - ou o fato de milhares de homens das mais variadas classes baterem em suas mulheres por um comportamento considerado inadequado – e perceber que a falta de denúncia existe porque a sociedade colocou uma enorme culpa em suas cabeças e que elas se acham merecedoras de um dente quebrado.
Pense bem, Ingrid, há tempos atrás as pessoas achavam que uma mulher que mantinha relações sexuais antes do casamento deveria ser marginalizada. Imagine se isso nunca tivesse mudado! Se não houvesse pílula ou se continuássemos trabalhando em nossas casas. Até hoje, em cidades como Aracaju, uma mulher que anda sozinha é vista como prostituta, sabia? Pode perguntar para qualquer motorista de táxi ou funcionário de hotel...Diga que quer sair sozinha e vai ouvir uma resposta muito machista – ou uma cantada.
As pessoas que querem experimentar não andam por aí criando campanhas para que todo mundo fique de determinada forma. Elas apenas querem viver suas vidas sem serem taxadas ou enquadradas em algum estereótipo.
Por fim, encerro o meu comentário, dizendo que o povo encontra a sua forma de divulgar a cultura e que, graças a Deus, estamos vivendo em uma época em que a massa pode e deve falar por si, a massa se impõe. Veja, um dos programas de maior audiência da Educadora é o de hip-hop. Isso não é fantástico? Em uma rádio que só divulgava música com uma certa aura, agora não há mais hierarquia.
Parabéns pelo blogg, quero que saiba que, apesar de ter uma opinião diversa, admiro muito o seu trabalho.
Abs, Marcela

INGRID DRAGONE disse...

Marcela,

Temos formas diferentes de pensar e graças a Deus estamos numa democracia, né? Rs. Bem, a minha intenção foi tentar retratar um pouco da nossa sociedade através de um fato, afinal, cada um faz da vida o que quiser, contanto que não prejudique os outros.

Você tem razão ao citar o caso do procurador bêbado e ameaçando policias, mas há de convir que do mesmo jeito que os meios de comunicação influenciam o público, o público também diz o que deve continuar na mídia. A sua audiência/atenção em relação aos fatos ajuda a definir o que deve estar em pauta. O caso Isabela, por exemplo, na época dava amais audiência que a novela das 8h!

Sabe o que eu acho também? Não dá pra sentir pena da professora. Na única entrevista que assisti com ela, em momento algum ela parecia abatida com a situação. E, de qualquer forma, conseguiu uma nova profissão, que pelo jeito não parece ser um sacrifício para ela. De mais a mais, quem se expõe muito, está sujeito a críticas. Pense que até um professor comum, em sala de aula, está sujeito a críticas. Os alunos vão falar da sua roupa, do seu jeito de escrever no quadro, da sua maneira de explicar os assuntos, enfim.

Sabe o que me deixa pasma? Casos de adolescentes que engravidaram em bailes funk no Rio de Janeiro. E muitos desses casos aconteceram porque virou uma espécie de cultura entre as meninas que freqüentavam esses eventos: sair sem calcinha e transar com muitos caras, dos quais nem sabiam o nome, e que as esperavam em filas!!! Muitas delas não sabem quem são os pais dos seus filhos! E tudo isso parecia muito normal para elas, porque dava a sensação de liberdade, favorecia a liberação sexual, lhes dava a “chance” de viver uma experiência “fantástica” e tinha a ver com o modo de vida de uma massa oprimida que ganha voz através da música de “gueto”. Acho que o caminho para o crescimento das pessoas não é esse...

Por fim, quero agradecer a sua visita ao meu blog. Espero que continue lendo e deixando a sua contribuição (opinião)! Obrigada por explicitar a sua admiração! Um forte abraço!