16 setembro, 2008

Cena Real

Aparado por alguém e sob um sol muito forte, o homem descia a elevação de areia com os braços abertos. As palmas das mãos voltadas para cima. A feição de um sofrimento antecipado. No meio de um pequeno grupo de pessoas estava a tristeza da qual teria certeza naquele momento. O corpo do seu filho estendido na praia. A toalha por cima do corpo não escondia as pernas - já reconhecidas à distância - do jovem de dezesseis anos. O homem aproximava-se do corpo e ao descobrir a cabeça do menino constatava num pranto cheio de dor: “é verdade... é verdade...”. Ele beijava a face do filho, chorava debruçado sobre o tórax dele, e o tocava muito, entendendo precocemente a falta daquele tato a partir de então.

A cena é real. Imagens de uma matéria feita esta semana sobre o afogamento de um estudante. Era manhã de domingo. O passeio de bicicleta com os amigos precedeu o banho de mar, que precedeu a morte, que precedeu o sofrimento de uma família para sempre.

O pai havia pedido que o menino não fosse à praia naquele dia ensolarado e especialmente convidativo. O que ou quem pode nos impedir de viver? E de morrer?


Ingrid Dragone

4 comentários:

Luisa Maria disse...

Nada a dizer, morte e/ou violência infantil me deixam sempre muito abalada.

Beijos!

INGRID DRAGONE disse...

Triste demais.

amanda dragone disse...

Pior ainda é ver que existem sinais e/ou intuições as quais não damos atenção! Achamos apenas que temos que viver a vida.

INGRID DRAGONE disse...

É, Amandinha. Importante ficar atento a essas coisas...