29 julho, 2008

A Desconhecida

As gorduras repousavam bem adaptadas sobre a cadeira de ferro. Parecia que as pernas do móvel poderiam ceder a qualquer momento com tanto peso. As nádegas extrapolavam, e muito, a circunferência do assento. A cintura terminava em franzidos laterais de três dobras. Causadas pela flacidez, as ondas nos braços tinham todas as nuances enfatizadas pela luminosidade do sol. As panturrilhas não gozavam mais dos contornos firmes. Os cabelos ainda eram bonitos, sedosos... e o faziam pensar em muitas coisas.

Ele não compreendia o que havia acontecido com a mulher que conhecera há vinte anos. Aquela que o encantou dançando numa festa de verão. O corpo, pequeno e todo certinho, que com movimentos leves e sensuais era embalado pelas músicas da moda. Apenas os cabelos ainda eram os mesmos.

Ele pensou na cruel e inexorável ação do tempo. De como a maternidade e o casamento podem minar a beleza de uma mulher. Uma mulher que já não dá importância à silhueta que vê no espelho. À pele que reflete o cansaço e exala o cheiro da fritura que vai à mesa no jantar. Uma mulher que se contenta em estar com uma roupa limpa e as unhas bem cortadas.

Uma desconhecida... A mãe dos seus três filhos. A mão que de maneira tão dedicada preparava bolos e pães. A pessoa com quem dividia a cama todas as noites. Tudo isso, e quase nada como personificação do desejo. Quem era a pessoa acomodada na cadeira? Não havia mais com o que se ludibriar. Os olhos viam o que o coração gostaria de negar. A união tornou-se monótona. Preguiçosa como aqueles quilos de tecido adiposo relaxados dentro da estampa de flores.

Ingrid Dragone

22 julho, 2008

O Preço da Sinceridade

Seja sincero, mas responda por isso. Sua reação autêntica ou palavra fidedigna pode magoar. Ofender. Causar fissuras nas relações pessoais e profissionais. Muitas pessoas preferem os que vivem de abraços e frases doces, mesmo que nada daquilo seja condizente com os reais sentimentos. Seja porque não querem absorver mais problemas em dias atuais, já tão complicados, ou mesmo por considerarem a falta de sinceridade um exemplo de educação.

Tá bom. Ninguém precisa também aturar grosseria. Nem desabafos descabidos. Nem todas as labaredas de uma cabeça quente ou um coração ferido. É preciso aprender a dose. Digo isso para mim. Preciso dizer. Todos nós, sinceros, precisamos.

Pois há momentos em que é imensuravelmente difícil segurar a língua ou um olhar duro. Aquilo tudo quer vir à tona e você tem a sensação de que se não sair, ocorrerá um implosão interna. Uma destruição sem precedentes.

A contenção está mesmo no pensamento que antecede a fala. Segundos de pensamento. Chega à boca o que você quer externar, depois de um caminho rápido e sufocante. É necessário avaliar cada vírgula. Deixar sair o que for editado. Ou nem deixar sair. Ceder ao ato de calar. Exercitar o silêncio que pode manter a ordem.

Outro dia meu chefe falou em engolir sapos gordos, com pernas abertas e cheios de unhas. Uma terrível e, ao mesmo tempo, plausível solução para as intempéries do dia-a-dia. Sinceramente... Preciso treinar muito.


Ingrid Dragone

15 julho, 2008

Edição

O repórter chega da rua. Furo gravado. O material mal repousa sobre as mãos do editor. Escadas. Ilha de edição. Olhos. Ouvidos. Ambos atentos à fita bruta. Plano seqüência... A filmagem de quinze será resumida a minutos. Dois, no máximo. Síntese e conteúdo. A matéria: uma história bem costurada. Lógica, relevância dos fatos, do que é dito pelas fontes. O tempo corre. O programa já está no ar. O tempo corre. A matéria não pode cair. É a do dia. Concentração. Raciocínio. Contextualização. Parte técnica: insert, fade, mosaico. Ainda falta a cabeça, os créditos, o gc, a impressão do espelho e da lauda. O tempo corre. O editor corre. Corre e xinga. Enfim, o vt é rodado para o telespectador, que nem desconfia do leão morto por trás daquelas imagens. Sentadinho no sofá.



Ingrid Dragone

07 julho, 2008

Recomendo – parte 10


  • Para quem gosta de filmes sobre amizade: Regras do Brooklin.
  • Bombom Bossa Nova, da Kopenhagen.
  • Relembrar músicas das décadas de 80 e 90 numa roda de violão. Muito divertido.
  • Beber, pelo menos, um copo de água ao acordar.
  • Fazer surpresinhas para as pessoas queridas. Elas ficam felizes e você mais ainda!
  • Um auto-presente! Depois de trabalhar tanto, você merece comprar algo que deseja faz tempo. Um relógio, uma bolsa, uma televisão...
  • Mudança na arrumação do quarto. A atitude pode ser simples, mas garante um novo astral.
  • Pizza de Catupiry e frango, com borda de chedar, da Cheiro de Pizza.
  • Domingo de sono após uma semana puxada.
  • Cinema à meia-noite. Sem fila. Sem pirralhada.

02 julho, 2008

Chega de drama???

De modo natural enxergo o que a vida tem de mais puro e bonito, mas não dá para conter o rio com uma grade ou esconder o sol com a peneira. É inevitável a minha indignação com a maldade do ser humano, seu instinto de “puxar o tapete”, seu desejo de se dar bem, ferindo e subindo nas costas dos outros, sua insensibilidade e, sobretudo, mania de violência. Às vezes tenho a impressão de que não fui talhada para esse mundo. O que há de errado com uma terra de grama verdinha e cheia de borboletinhas amarelas?

Não posso me perguntar isso? Acho que não deveria me perguntar isso em público... Admito: tanta desigualdade social e desgraças têm me tocado ao extremo. Esta semana cheguei a acordar com pesadelos horríveis, provocados pela rotina de apuração e conhecimento de assassinatos e crimes estarrecedores, das mais diversas naturezas. Não me acostumo.

“Onde esse mundo vai parar?”, sempre questionam os mais velhos. Muitas pessoas, vestidas com o discurso do “chega de drama”, acham esse tipo de comentário uma basbaquice (é assim mesmo que se escreve). Devem viver em outro planeta, pois quem está ligado no que, de fato, acontece tem a plena consciência sobre o desnorteio de tudo, da falta de diretrizes.

E agora? Eu tinha que terminar esse texto sugerindo uma solução? Cadê minhas borboletinhas amarelas???



Ingrid Dragone