09 janeiro, 2008

Tormentos Íntimos


“Conselheira Sentimental”. Placa em letras grandes e vermelhas que Miriam havia afixado na porta de uma espelunca. A rua era meio escondida. Esburacada. Cheia de sujeira. Fétida. E as madames de salto agulha arriscavam-se na descida e sempre chegavam.


Seu método de ajuda mesclava tarô, búzios, bola de cristal e uma conversa baseada em signos e leituras orientais - para vocabulário e fundamentos fáceis e críveis. Convencia bem, talvez porque fosse mulher de grande intuição. E para tamanha fama, preço alto.


A aparência impressionava. Roupas com muitos tecidos. Unhas incrivelmente bem feitas. O olhar transmitia confiança e verdade. A experiência de vida que carregava a fazia assim: exata. Os clientes estavam satisfeitos, confirmavam as feições de uma poderosa feiticeira, e a mais e mais amigos indicam os seus serviços, a solução na vida de tantos... Era procurada em momentos de desespero, incabíveis na razão.


A consulta era envolvente. A atmosfera de mistério evocava sabedoria. Os adornos pareciam relíquias. Incenso para perfumar o ambiente. A expressão de sua face sugestionava. Ela tocava nas questões mais íntimas das pessoas com a frieza mecânica de um cirurgião. Antes de uma exploradora de almas doentes, Miriam era uma atriz nata.


Os conselhos destinavam-se a problemas emocionais de qualquer natureza. Relação entre pais e filhos, dificuldades conjugais, até as maneiras para a conquista de um novo amor. De certo, Miriam lapidou-se. Tantas histórias fizeram-na vestir o ser humano repleto de sensibilidade para lidar com os conflitos alheios. Alheios...


Certo dia, indo para casa, depois de uma sessão que a deixara “carregada”, ficou pensando em sua vida. Tormentos íntimos. Pensamentos bastante prolongados em sua pessoa. Abriu a porta. Catou as correspondências. Enfiou na bolsa, que mal guardava o dinheiro de uma cliente importante. Olhou-se no espelho da sala. Sem ninguém para conversar, sentou-se à mesa e resolveu desabafar no papel.


Deus,

Desculpe-me por esse meu ofício indigno! Talvez por me mostrar tão poderosa, eu seja infeliz, só e vazia. Como posso ser uma conselheira sentimental se péssima sempre sou nos meus assuntos pessoais? Logo eu... compro a minha aparência a todo custo, e tão cruel fui com as pessoas ao meu redor...

Conselheira sentimental? Eu? Que piada imoral! Minha mãe, aquela senhora inofensiva, que tudo fez por mim, deportei para um asilo nojento. Minha irmã estava grávida e desempregada e não a quis em minha casa. Com meu pai não falo há anos. A filha que tive... num orfanato. Abortei. Sei eu lá quantas vezes. Com meus homens não suportei viver. E o último? Deus, por esse pecado imperdoável me perdoe! O miserável fede embaixo das terras do meu quintal...


Uma exaustão intensa caminhou por todo o seu corpo. Sentiu um peso sobre a cabeça. E quando a testa ensaiava o movimento de encontro ao tampo da mesa, e o lápis iniciou o repouso sobre o caderno, o telefone chamou. Ela correu para atender. Havia distribuído panfletos naquela semana e não queria perder dinheiro.


- Bom dia. Gostaria de falar com Miriam, a conselheira sentimental.

- Bom dia! Sou eu. Em que devo curá-la, querida?


As extremas humanidade e serenidade quase puderam tocar a pele da nova e esperançosa cliente.




Ingrid Dragone

Um comentário:

Luiz disse...

Adoro vc viu!!!!
bjsss