07 janeiro, 2008

A Pior Solidão


Lembro-me daquele velhinho sentado no banco da praça. Roupas puídas. Um saco plástico preto na mão esquerda. Deus sabe o que havia dentro. Ele acreditava estar acompanhado de alguém com quem discutia muito. Sua feição expressava uma irritação profunda. Mexia o dedo indicador com energia, como quem dá uma bronca séria. A loucura dele tem lá sua lógica. Bobo é quem desconfia disso. Ele brigava mesmo com uma pessoa, imaginária ou não, e certamente não se sentia sozinho. Ele, definitivamente, não era sozinho. Tinha alguém com quem se importava, alguém para quem podia dizer o que sentia. A pior solidão não é como a dele, que nem de longe sabe o que é solidão. A pior solidão é cria da desatenção. É a solidão provocada por nós.


A pior solidão é a do olhar focado em um mundo particular, orbitado no EU, certo de que se basta por si só. A pior solidão é a que nos faz lamentar a roupa nova e já cansada do cabide. A roupa que ainda não tivemos oportunidade de usar porque é roupa de sábado, sábado com amigos. A pior solidão é a de quem vê um monte de guloseimas partindo da geladeira para a lixeira. Deveriam ter sido divididas, mas o prazo de validade chegou ao fim. A pior solidão é a de quem consulta a agenda do celular e constata que o distanciamento inibe qualquer tentativa de convite.


A pior solidão é a que nos tranca em pensamentos de solidão. Quando o travesseiro e a televisão são o refúgio das horas ociosas. Quando não há, segundo a sinceridade da nossa lucidez e a nossa convicção mais convicta, bons ouvidos para nossas histórias e bons braços para o nosso corpo cansado.


Lembro-me bem do velhinho. Acompanhadíssimo. Bastante vivo em seu bradar. E muita gente sozinha tem certeza de que não é louca...



Ingrid Dragone

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