04 janeiro, 2008

O Contador de Filmes

Juvenal era um menino de muito gosto por criar brinquedos de madeira, inventar coisas. Seu passatempo predileto. Talvez a falta de dinheiro o fizesse assim, tão dedicado a tais labores. De qualquer sorte, nesse ofício permanecia durante horas, esquecendo-se da vida ao redor.

Certo dia, num dia azul de se admirar, foi inaugurado o cinema naquela cidadezinha do interior. Um sonho para o molequinho de meias remendadas. A novidade era brilho para seus olhinhos. E não é que o pequeno agora só pensava em ir à matinê?

Na verdade, o cinema tornou-se o encantamento da vida, o passeio adorado por todos os habitantes do lugar, onde se vivia um cotidiano pacato. Era de bom tamanho que as pessoas se vestissem alinhadamente para assistir aos filmes; com os melhores sapatos, penteados impecáveis, e vestimentas preferencialmente novas, de dignos corte e fazenda.

Por injustiças do destino, Juvenal não podia assistir às sessões do cinema. Não tinha o dinheiro. O tempo passou. O tempo foi contento.

Em uma das andanças pelas redondezas da humilde casa onde morava, conheceu um sujeito chamado Geraldo Zibumba. De cara, o dito indagou-lhe sobre o que achava da nova diversão da cidade. Juvenal, com vergonhas sentidas e alumiadas no rosto, disse não conhecer o cinema, e com sinceridade própria de uma criança alegou a falta de recursos.

O outro se comoveu. Perguntou ao pequeno se estava disposto a ouvi-lo contar os filmes. O menino sentiu-se profundamente feliz com proposta tão generosa e no mesmo momento tirou com as mãozinhas, meio talhadas, a poeira de um banquinho e sentou-se entusiasmado para saber das histórias.

Geraldo era um narrador de talento nato. Incrível. Juvenal via o próprio filme, nitidamente, em minúcias, repleto de cheiros, tons, ruídos, ventos e luz diante dos seus olhos graúdos e curiosos.

Assim, uma vez por semana sucedia-se a reunião. Era sempre assim. Zibumba dava vigor a cada palavra que dizia, como se ele mesmo fosse o criador dos filmes, e Juvenal enchia-se de admiração e maravilhamento.

Numa dessas agradáveis tardes, Geraldo sugeriu a Juvenal que produzisse algo para ganhar o dinheiro de que precisava para ir ao tão sonhado cinema. O menino animou-se com a idéia. Naquela noite matutou, matutou... O que poderia vender? Matutou, matutou... Mas era claro! Claro como a clara do ovo da galinha! Não leitor! Ele não decidiu vender ovos! Seu quintal dava limão aos montes! Decidiu fazer limonadas!

No dia seguinte levantou com os primeiros raios do sol, que muito castigava a janela sem cortinas. Direitinho, como esquilinho, foi vasculhar a casa em busca do material necessário para iniciar a gestão do seu grande negócio. E em pouco, já estava tudo muito pronto, muito certo.

Fez banca na praça. Passou horas vendendo o refresco. E até que boa freguesia teve, afinal, o calor era de derreter. Metia com euforia todo vintenzinho que recebia em um saquinho de tecido ordinário. Uns até lhe deixavam o troco.

Ao fim da labuta, com as costas pirraçando em dor e a pele demasiadamente corada, retirou a suada fortuninha do saquinho e contou ansioso tostão por tostão. Que felicidade! Tinha o necessário para ir a uma sessão e ainda comprar uns queimados caseiros da venda de seu Raimundo.

Domingo era. Juvenal estava radiante. Vestiu sua melhor roupa, um trapinho bem alvinho e emendado com esmero. Pegou as meias do irmão às escondidas e calçou seus únicos sapatos, de sola bem gasta.

Chegando à porta do cinema, deu uma ajeitada última nas madeixas, colocou-se todo em postura e comprou o ingresso. Entrara na sala com uma alegria que não cabia no peito, e os queimados de seu Raimundo que, de tantos, quase também não cabiam nos bolsos. Sentou-se. Respirou fundo e teve orgulhoso de si mesmo.

Terminada a matinê, saiu com humor rasteiro, mãos nos bolsos vazios e dentes grudentos. Encontrou com Geraldo Zibumba e contou que havia acabado de assistir ao filme de bang bang.O amigo não entendeu seu desânimo e indagou com a cabeça.

Juvenal o encarou de baixo, com o toco do tamanho, e mostrou-se sinceramente decepcionado, emoldurando olhinhos expressivos:

- Olha Zibumba... Gostei muito não...

- Mas pequeno... Esse não era o teu sonho? Nunca nessa vida de Deus posso compreender teu comportamento!

- Tenho que te dizer viu! Tu me contava os filmes com tanto detalhe e colorido que pensei que esse tal de cinema fosse coisa melhor!

- Arre menino! Eu te contava o que meus olhos já testemunharam!

- Nada disso viu, Zibumba! Tu conta grande! Tu conta como eu queria ver! Bom mentiroso você é!


Ingrid Dragone

5 comentários:

Amanda Dragone disse...

Prometo que fiquei emocionada de ler e imaginar toda a história! Pensar em nosso pai pequenino com toda a inocência e vislumbramento de uma criança.

Alá disse...

Parabéns Ingrid, em breve teremos um Guimarães Rosa ou um Graciliano Ramos lapidado em uma bela mulher que és. Alá, I loved.

Anônimo disse...

Te adoro....
bjs
Luiz

Fabio Castro disse...

Ingrid
Trabalho com seu pai há mais de 15 anos e realmente me emocionei ao ler a historia. Ele é uma pessoa maravilhosa e tem um bilho nos olhos que nos cativa a creditar em dias melhores.

Parabéns pelo texto.

INGRID DRAGONE disse...

Obrigada, Fábio! Que bom ter esse retorno!