02 janeiro, 2008

Imagem


Ah! Nada como a simplicidade dos gestos não calculados e da fala originada do pensamento sincero. Por isso gosto tanto de crianças. Se dão a língua ou um abraço, estão expressando com toda a verdade os seus sentimentos, o que vale, o que pesa, o que realmente importa.

O amadurecimento tem de ser sinônimo de teatralização de atitudes? Estamos sempre em busca da palavra “funcional” - a que melhor constrói uma imagem - e não daquela que mais natural seria para nós.

Criamos a necessidade da camuflagem, o complicado exercício de mostrar o que não somos, de sentir o que não sentimos. Dispomos de uma coleção de máscaras. Uma para cada dia, ambiente e situação. O homem, o ser de emoções e fragilidades, não se admite. E sofre. E se acostuma com essa loucura.

Hoje é inaceitável a frase e a ação arrependida. Não há espaço para a falha. Admirável é aquele que domina a técnica de fazer você pensar o que ele quer que você pense (sobre os contextos, ou sobre ele, ou sobre você), sem deixar indícios de maquiagem e texto decorado. E, infelizmente, você aprende que não poderá fugir disso...

Com o passar do tempo, a paranóica habilidade do disfarce vai sendo aperfeiçoada. Instala-se a dicotomia entre o homem que se apresenta ao mundo e o homem que se reconhece. Nada fácil. Porque não dá para fazer joguinhos hermenêuticos com a emoção essencial, carregada no próprio peito. E a todo esse esforço pela aparência fortalecida dá-se o nome de sobrevivência.


Ingrid Dragone

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