30 janeiro, 2008

A Carta de Manoel

Salvador - Bahia - Brasil


Oi amigo Joaquim!


Encontro-me no Brasil há uma semana e muito tenho para te contar sobre as novidades que
nesta terra presencio.


Sendo fevereiro este mês, estou a participar de um evento chamado carnaval; uma festa grandiosa na qual nada se comemora, fato que causou-me estranhamento, pois para realizá-la muito se gasta, e durante uma semana vive-se em função disto.


As ruas são preenchidas por milhões de pessoas, de modo que se olharmos do alto avistamos um enorme formigueiro. A multidão fica a esperar por palcos móveis, os trios elétricos, em cima dos quais bandas de Axé (um ritmo para balançarmos as ancas, coisa que os nativos bem e com facilidade fazem) tocam freneticamente durante horas, e todos põem-se a pular atrás como loucos. E muitas vezes, mesmo tomadas por um entusiasmo incompreensível , as pessoas passam de uma confraternização à uma violência bestial brigando aos socos; comportamento que considero pouco civilizado.


Há trios elétricos que tocam para o “povão” ou “folião-pipoca”, como dizem, e trios rodeados por cordas, para determinada quantidade de gente, dentro das quais usam-se fardas de identificação praticamente tribais, chamadas “abadás”.


As lendas dessas terras contam que o carnaval é uma festa muito democrática, pelo fato de todas as pessoas poderem participar, o que culmina na união de raças e classes. Mas creio que este pensamento é muito primitivo, acho estranha a necessidade de cordas para separar um povo tão confraternizado...


Além disso, nesta festa agarra-se e beija-se com facilidade qualquer pessoa sem ao menos saber o nome. A esse costume, que de acordo com meus valores é uma promiscuidade, dão o nome “ficar”.


Aqui se bebe com freqüência uma água doce extraída de uma fruta que os brasileiros chamam de coco. E mulheres negras, ornadas com muitas pulseiras e colares e vestidas com roupas brancas de renda ( acham que assim estão bem apresentáveis ), muito vendem um bolo chamado acarajé, o qual tem mais ou menos o tamanho e o formato de um hambúrguer. Dentro dele há uma pasta amarela, o “vatapá”. Este alimento muito forte, à base de um fruto dendê, possui um gosto peculiar, e apesar de ter sentido grande desconforto estomacal e intestinal na primeira vez em que o comi, agora muito me agrada e acho que viciei-me: é melhor que bacalhau!


As mulatas, das quais muito ouvimos falar aí em Portugal, são mulheres exuberantes, de bastante e duras carnes que gostam de dançar um ritmo difícil chamado samba (um hábito presente em todos os rituais), e andam praticamente nuas, usando vestimentas mínimas e apertadas, que incrivelmente não incomodam o andar e o sentar, e creio que usam-nas para seduzir os machos (nisso apresentam grande naturalidade), e também porque nesta terra existem muitos mares, e o clima tropical é predominante.


Há aqui a capoeira, uma espécie de luta misturada com dança, praticada em duplas e ao ritmo de um instrumento berimbau, que parece um arco – como o dos índios – com uma cuia colada em baixo, do qual se extrai um som peculiar, e no primeiro momento achei-o feio ou estranho.


As crenças são esquisitas... Aqui se cultua um tal de sincretismo. Já a hospitalidade é boa, os baianos são criaturas gentis, de bom coração, e muitas mulheres já se dispuseram a fazer com que eu me sinta mais acolhido neste paraíso.


Mas de tudo o que meus olhos presenciaram e posso relatar, a alegria que as pessoas exalam neste lugar é o fato que me causa maior maravilhamento. Há pequenos vestidos com trapos, descalços, maltratados, sorrindo e cantando “segure o tchan / amarre o tchan”, e com isso não sei bem o que pretendem dizer. Deve ser algo obsceno, pois dançam este refrão batendo as mãos nas vergonhas!




Bem, por aqui fico.

Lembranças à Maria!

Muito axé!

Manoel




Ingrid Dragone

29 janeiro, 2008

Definitivamente Resiliente!


A vida é repleta de adversidades. Acontecimentos inesperados... Não há muito o que fazer, por exemplo, quando apontam uma arma em sua direção e te arrancam alguns bens. Fui vítima de um assalto no último sábado. Na porta do meu prédio, às 17h40min. Naquele momento eu era, apenas, mais uma pessoa engrossando os índices de violência das grandes cidades.

Dois homens surgiram. Simplesmente surgiram. Não se sabe de onde. É surreal! No início a ficha não cai. Mas esses caras são realmente bons quando o assunto é fazer pressão psicológica. Logo você percebe que está numa cilada. Eu tremia, mas mantive uma aparente calma. Não gritei. Nem esbocei movimentos bruscos. Entreguei sem resistência tudo o que quiseram, embora tenha pedido duas vezes que deixassem meus documentos. Em vão...

Saí do carro, olhando para trás, temendo o tiro. A sensação é muito ruim. Você é um nada. Um ser totalmente vulnerável. Sem forças. Sem qualquer poder. E assim, em uma tarde muito bonita de sol, vi o carro onde eu estava – com minha bolsa, relógio, celular e objetos de valor sentimental - indo embora, sei lá para que lado. Impotência. A fragilidade da minha existência confirmada da forma mais banal e pelas mãos de dois elementos desconhecidos, encorajados por um revólver, que eu nem sei se realmente continha balas. Não ia pagar para ver...

Tinha platéia. E ninguém podia ter ajudado. Pronto! Assaltada! Não veio a lágrima, mas a consciência, de fato. Era a hora de agir. Subi para providenciar o cancelamento dos cartões de crédito e do número do telefone móvel. O carro, felizmente, está no seguro. Fui prestar queixa na delegacia. Havia mais duas pessoas esperando para registrar ocorrências do mesmo tipo. Ali eu vi, de perto, o tratamento que nós, cidadãos, recebemos. Parece que somos os ladrões...

E depois de tudo isso? Depois do grande susto? Resiliência é o segredo. Sou definitivamente resiliente! Resiliência? Um princípio da física: a capacidade de um material voltar ao seu estado normal depois de ter sofrido uma pressão”. A palavra é também aplicada na caracterização de pessoas como eu.

Primeiro lamentei. Depois veio raiva. Trabalhamos para comprar nossas coisas, pagamos impostos, e vem um miserável desse e tira tudo assim... E pronto... passou... agradeci a Deus por não ter sido machucada e nem levada para um lugar qualquer. Sou assim. Defino por quanto tempo vou querer alimentar um sentimento. Então, canalizo minha emoção para outras ações. No outro dia saí de casa só, tomei sorvete e fiz um passeio no parque. Estava mais atenta, lógico...

Na segunda-feira resolvi questões de ordem prática. Pesquisei o aparelho que a operadora de telefonia vai me oferecer. Tirei novos documentos – a Bahia é o único Estado que não libera o pagamento de segunda via com a apresentação do boletim de ocorrência. E é isso... Na minha mesa de computador descansa o bem que ficou para contar a história daquele sábado. Os meus óculos escuros. Estavam na minha mão. Os assaltantes não viram. Foram salvos! Minha pele também! E a vida continua.

Ingrid Dragone

23 janeiro, 2008

2º Motivo do beijo


Beijo teu retrato

Um tão curto tato

Só para tê-lo

Sem nó

Sem apelo

Assim encontrá-lo

Num fingir

Num estalo



Ingrid Dragone


22 janeiro, 2008

Ninguém merece...


Raramente assisto televisão. Orgulho-me disso. Significa que não queimo o meu tempo ou que sou uma privilegiada por ter atividades mais interessantes e/ou importantes. Às vezes rola um telejornal, um seriado, e uns filmes. Nesses meus raros momentos televisivos, o que me deixa realmente indignada é a maquiavélica estratégia da Globo ao querer me fazer engolir, nos intervalos, a porcaria do BBB.


Tenho personalidade, senso crítico, vergonha na cara, conhecimento sobre as pressões mercadológicas da mídia, e cultura suficiente para afirmar: “Não vou ceder!!!”. Esse formato de entretenimento não desce. Indigesto. Inútil. Idiotice enlatada.


Alguém irá me dizer que o programa é um fenômeno e que eu não posso negar. Alguém irá me aconselhar a despir a minha opinião dos vultos preconceituosos, e vai me incentivar a enxergar a representação das relações sociais ali. E repito: “Não vou ceder!!!”.


Não há quebra de paradigmas e curiosidade (e olha que tenho muita!) que mova a minha atenção para tal reality show. Quem são aqueles aspirantes a estrela? De onde saíram aquelas celebridades instantâneas, construídas? Por que o público lhes garante tamanha popularidade e tantos confetes?


Beijam-se e fazem sexo. Exibem as ancas rebolativas. Criam intrigas e imagens. E o que eu tenho a ver com isso? Vou ocupar boa parte das minhas noites e pensamentos com indivíduos que, um dia, quem sabe, poderão ser aproveitados pela emissora? Mesmo sem talento? Sou uma telespectadora muito mais exigente! E amo, amo mesmo, com todas as minhas forças, uma das maiores invenções da era do ócio: o controle remoto.




Ingrid Dragone

21 janeiro, 2008

Inefável


Nadas vêm à voz...

Cair-me em tuas pupilas?

Deixar que signifique

O Poema-infinito

Que idiomas não podem?


Quimeras e páginas

Do esquerdo-peito

Não se bastam por metáforas,

Nenhuma delas

Seja tão, tão...

Ah! Deveria desistir!


Declare-me

Se igualmente

Não consegues explicar-me!

Pois um dia longe

O poeta falou-me

Do pulsar-sem-palavras

Compreendendo-o ... amor!



Ingrid Dragone


17 janeiro, 2008

Fita em Laços



Pés fartos dos sapatos

Por cadarços apertados

Quando calçam sapatilhas

E transformam fita em laços

Dançam leves no espaço...


Nessa rima ensaio saltos

Difíceis, pequenos, altos

Tantos que sempre faço

Com sucesso ou fracasso

Tantos passos, passo a passo


Uso ponta, ensaio braços

Vem a dor e o cansaço

Eu enceno e disfarço

Há postura para o clássico!

E o corpo no compasso


Venço o esforço num estalo

Dói sorrir e doem os calos

Mas sorrio e esqueço

Se me entrego e me aqueço

Pra ser luz e flor nos palcos




Ingrid Dragone

11 janeiro, 2008

Nossa Primeira Valsa



Borboletear de olhares

Fusão de mãos aprendizes

Com o corpo poemas me fala

E entendo na alma o que dizes


O toque, a lua, as claves

Nuances de bálsamos e brisa

Piso balanços suaves

Suave em balanços tu pisas


E a roda e o passo por teima

Se faz deveras maior

Girassol tão confuso nas beiras

Que se perde o seu traço ao redor


Combinado andar sobre flores

Um cair-em-teus-braços perfeito

Que envalsa uma trama sem dores

É debute de amores no peito



Ingrid Dragone


09 janeiro, 2008

Tormentos Íntimos


“Conselheira Sentimental”. Placa em letras grandes e vermelhas que Miriam havia afixado na porta de uma espelunca. A rua era meio escondida. Esburacada. Cheia de sujeira. Fétida. E as madames de salto agulha arriscavam-se na descida e sempre chegavam.


Seu método de ajuda mesclava tarô, búzios, bola de cristal e uma conversa baseada em signos e leituras orientais - para vocabulário e fundamentos fáceis e críveis. Convencia bem, talvez porque fosse mulher de grande intuição. E para tamanha fama, preço alto.


A aparência impressionava. Roupas com muitos tecidos. Unhas incrivelmente bem feitas. O olhar transmitia confiança e verdade. A experiência de vida que carregava a fazia assim: exata. Os clientes estavam satisfeitos, confirmavam as feições de uma poderosa feiticeira, e a mais e mais amigos indicam os seus serviços, a solução na vida de tantos... Era procurada em momentos de desespero, incabíveis na razão.


A consulta era envolvente. A atmosfera de mistério evocava sabedoria. Os adornos pareciam relíquias. Incenso para perfumar o ambiente. A expressão de sua face sugestionava. Ela tocava nas questões mais íntimas das pessoas com a frieza mecânica de um cirurgião. Antes de uma exploradora de almas doentes, Miriam era uma atriz nata.


Os conselhos destinavam-se a problemas emocionais de qualquer natureza. Relação entre pais e filhos, dificuldades conjugais, até as maneiras para a conquista de um novo amor. De certo, Miriam lapidou-se. Tantas histórias fizeram-na vestir o ser humano repleto de sensibilidade para lidar com os conflitos alheios. Alheios...


Certo dia, indo para casa, depois de uma sessão que a deixara “carregada”, ficou pensando em sua vida. Tormentos íntimos. Pensamentos bastante prolongados em sua pessoa. Abriu a porta. Catou as correspondências. Enfiou na bolsa, que mal guardava o dinheiro de uma cliente importante. Olhou-se no espelho da sala. Sem ninguém para conversar, sentou-se à mesa e resolveu desabafar no papel.


Deus,

Desculpe-me por esse meu ofício indigno! Talvez por me mostrar tão poderosa, eu seja infeliz, só e vazia. Como posso ser uma conselheira sentimental se péssima sempre sou nos meus assuntos pessoais? Logo eu... compro a minha aparência a todo custo, e tão cruel fui com as pessoas ao meu redor...

Conselheira sentimental? Eu? Que piada imoral! Minha mãe, aquela senhora inofensiva, que tudo fez por mim, deportei para um asilo nojento. Minha irmã estava grávida e desempregada e não a quis em minha casa. Com meu pai não falo há anos. A filha que tive... num orfanato. Abortei. Sei eu lá quantas vezes. Com meus homens não suportei viver. E o último? Deus, por esse pecado imperdoável me perdoe! O miserável fede embaixo das terras do meu quintal...


Uma exaustão intensa caminhou por todo o seu corpo. Sentiu um peso sobre a cabeça. E quando a testa ensaiava o movimento de encontro ao tampo da mesa, e o lápis iniciou o repouso sobre o caderno, o telefone chamou. Ela correu para atender. Havia distribuído panfletos naquela semana e não queria perder dinheiro.


- Bom dia. Gostaria de falar com Miriam, a conselheira sentimental.

- Bom dia! Sou eu. Em que devo curá-la, querida?


As extremas humanidade e serenidade quase puderam tocar a pele da nova e esperançosa cliente.




Ingrid Dragone

07 janeiro, 2008

A Pior Solidão


Lembro-me daquele velhinho sentado no banco da praça. Roupas puídas. Um saco plástico preto na mão esquerda. Deus sabe o que havia dentro. Ele acreditava estar acompanhado de alguém com quem discutia muito. Sua feição expressava uma irritação profunda. Mexia o dedo indicador com energia, como quem dá uma bronca séria. A loucura dele tem lá sua lógica. Bobo é quem desconfia disso. Ele brigava mesmo com uma pessoa, imaginária ou não, e certamente não se sentia sozinho. Ele, definitivamente, não era sozinho. Tinha alguém com quem se importava, alguém para quem podia dizer o que sentia. A pior solidão não é como a dele, que nem de longe sabe o que é solidão. A pior solidão é cria da desatenção. É a solidão provocada por nós.


A pior solidão é a do olhar focado em um mundo particular, orbitado no EU, certo de que se basta por si só. A pior solidão é a que nos faz lamentar a roupa nova e já cansada do cabide. A roupa que ainda não tivemos oportunidade de usar porque é roupa de sábado, sábado com amigos. A pior solidão é a de quem vê um monte de guloseimas partindo da geladeira para a lixeira. Deveriam ter sido divididas, mas o prazo de validade chegou ao fim. A pior solidão é a de quem consulta a agenda do celular e constata que o distanciamento inibe qualquer tentativa de convite.


A pior solidão é a que nos tranca em pensamentos de solidão. Quando o travesseiro e a televisão são o refúgio das horas ociosas. Quando não há, segundo a sinceridade da nossa lucidez e a nossa convicção mais convicta, bons ouvidos para nossas histórias e bons braços para o nosso corpo cansado.


Lembro-me bem do velhinho. Acompanhadíssimo. Bastante vivo em seu bradar. E muita gente sozinha tem certeza de que não é louca...



Ingrid Dragone

04 janeiro, 2008

O Contador de Filmes

Juvenal era um menino de muito gosto por criar brinquedos de madeira, inventar coisas. Seu passatempo predileto. Talvez a falta de dinheiro o fizesse assim, tão dedicado a tais labores. De qualquer sorte, nesse ofício permanecia durante horas, esquecendo-se da vida ao redor.

Certo dia, num dia azul de se admirar, foi inaugurado o cinema naquela cidadezinha do interior. Um sonho para o molequinho de meias remendadas. A novidade era brilho para seus olhinhos. E não é que o pequeno agora só pensava em ir à matinê?

Na verdade, o cinema tornou-se o encantamento da vida, o passeio adorado por todos os habitantes do lugar, onde se vivia um cotidiano pacato. Era de bom tamanho que as pessoas se vestissem alinhadamente para assistir aos filmes; com os melhores sapatos, penteados impecáveis, e vestimentas preferencialmente novas, de dignos corte e fazenda.

Por injustiças do destino, Juvenal não podia assistir às sessões do cinema. Não tinha o dinheiro. O tempo passou. O tempo foi contento.

Em uma das andanças pelas redondezas da humilde casa onde morava, conheceu um sujeito chamado Geraldo Zibumba. De cara, o dito indagou-lhe sobre o que achava da nova diversão da cidade. Juvenal, com vergonhas sentidas e alumiadas no rosto, disse não conhecer o cinema, e com sinceridade própria de uma criança alegou a falta de recursos.

O outro se comoveu. Perguntou ao pequeno se estava disposto a ouvi-lo contar os filmes. O menino sentiu-se profundamente feliz com proposta tão generosa e no mesmo momento tirou com as mãozinhas, meio talhadas, a poeira de um banquinho e sentou-se entusiasmado para saber das histórias.

Geraldo era um narrador de talento nato. Incrível. Juvenal via o próprio filme, nitidamente, em minúcias, repleto de cheiros, tons, ruídos, ventos e luz diante dos seus olhos graúdos e curiosos.

Assim, uma vez por semana sucedia-se a reunião. Era sempre assim. Zibumba dava vigor a cada palavra que dizia, como se ele mesmo fosse o criador dos filmes, e Juvenal enchia-se de admiração e maravilhamento.

Numa dessas agradáveis tardes, Geraldo sugeriu a Juvenal que produzisse algo para ganhar o dinheiro de que precisava para ir ao tão sonhado cinema. O menino animou-se com a idéia. Naquela noite matutou, matutou... O que poderia vender? Matutou, matutou... Mas era claro! Claro como a clara do ovo da galinha! Não leitor! Ele não decidiu vender ovos! Seu quintal dava limão aos montes! Decidiu fazer limonadas!

No dia seguinte levantou com os primeiros raios do sol, que muito castigava a janela sem cortinas. Direitinho, como esquilinho, foi vasculhar a casa em busca do material necessário para iniciar a gestão do seu grande negócio. E em pouco, já estava tudo muito pronto, muito certo.

Fez banca na praça. Passou horas vendendo o refresco. E até que boa freguesia teve, afinal, o calor era de derreter. Metia com euforia todo vintenzinho que recebia em um saquinho de tecido ordinário. Uns até lhe deixavam o troco.

Ao fim da labuta, com as costas pirraçando em dor e a pele demasiadamente corada, retirou a suada fortuninha do saquinho e contou ansioso tostão por tostão. Que felicidade! Tinha o necessário para ir a uma sessão e ainda comprar uns queimados caseiros da venda de seu Raimundo.

Domingo era. Juvenal estava radiante. Vestiu sua melhor roupa, um trapinho bem alvinho e emendado com esmero. Pegou as meias do irmão às escondidas e calçou seus únicos sapatos, de sola bem gasta.

Chegando à porta do cinema, deu uma ajeitada última nas madeixas, colocou-se todo em postura e comprou o ingresso. Entrara na sala com uma alegria que não cabia no peito, e os queimados de seu Raimundo que, de tantos, quase também não cabiam nos bolsos. Sentou-se. Respirou fundo e teve orgulhoso de si mesmo.

Terminada a matinê, saiu com humor rasteiro, mãos nos bolsos vazios e dentes grudentos. Encontrou com Geraldo Zibumba e contou que havia acabado de assistir ao filme de bang bang.O amigo não entendeu seu desânimo e indagou com a cabeça.

Juvenal o encarou de baixo, com o toco do tamanho, e mostrou-se sinceramente decepcionado, emoldurando olhinhos expressivos:

- Olha Zibumba... Gostei muito não...

- Mas pequeno... Esse não era o teu sonho? Nunca nessa vida de Deus posso compreender teu comportamento!

- Tenho que te dizer viu! Tu me contava os filmes com tanto detalhe e colorido que pensei que esse tal de cinema fosse coisa melhor!

- Arre menino! Eu te contava o que meus olhos já testemunharam!

- Nada disso viu, Zibumba! Tu conta grande! Tu conta como eu queria ver! Bom mentiroso você é!


Ingrid Dragone

02 janeiro, 2008

Imagem


Ah! Nada como a simplicidade dos gestos não calculados e da fala originada do pensamento sincero. Por isso gosto tanto de crianças. Se dão a língua ou um abraço, estão expressando com toda a verdade os seus sentimentos, o que vale, o que pesa, o que realmente importa.

O amadurecimento tem de ser sinônimo de teatralização de atitudes? Estamos sempre em busca da palavra “funcional” - a que melhor constrói uma imagem - e não daquela que mais natural seria para nós.

Criamos a necessidade da camuflagem, o complicado exercício de mostrar o que não somos, de sentir o que não sentimos. Dispomos de uma coleção de máscaras. Uma para cada dia, ambiente e situação. O homem, o ser de emoções e fragilidades, não se admite. E sofre. E se acostuma com essa loucura.

Hoje é inaceitável a frase e a ação arrependida. Não há espaço para a falha. Admirável é aquele que domina a técnica de fazer você pensar o que ele quer que você pense (sobre os contextos, ou sobre ele, ou sobre você), sem deixar indícios de maquiagem e texto decorado. E, infelizmente, você aprende que não poderá fugir disso...

Com o passar do tempo, a paranóica habilidade do disfarce vai sendo aperfeiçoada. Instala-se a dicotomia entre o homem que se apresenta ao mundo e o homem que se reconhece. Nada fácil. Porque não dá para fazer joguinhos hermenêuticos com a emoção essencial, carregada no próprio peito. E a todo esse esforço pela aparência fortalecida dá-se o nome de sobrevivência.


Ingrid Dragone

01 janeiro, 2008

Chegou 2008


A propósito... o dia nasceu especialmente bom hoje. Sol amarelinho, amarelinho. Cidade meio parada. Qual a diferença mesmo? Ah! Ano novo. Vamos nos acostumar. Agora há um 8 no final.

Final... Encontramos muita felicidade ontem. Perspectivas e momentos regados a champagne e sonhos. Adormecemos, e foi tudo uma festa. Muito cheia de luz, mas só uma festa. Fica a fotografia, a areia da praia impregnada na blusa branca, a poesia do sorriso.

Começo... Retomada? Renovação? Realidade! A mesma! A mudança é na mente arejada, que em tudo pensa, que em nada se fecha, cotidianamente...

Chegou 2008. Mais um dia. O fio da vida não se interrompeu.


Ingrid Dragone