19 dezembro, 2007

Separação


Nada mais havia para ser dito. As malas estavam sobre a soleira da porta. Moacir terminava de abotoar a camisa bem passada. Laura olhava para ele com olhos de um sentimento misturado. Uma combinação de alívio e tristeza. Continuado silêncio... Sem mais, ele fez uma afirmativa com a cabeça de forma que ela compreendesse um “pronto, estou indo”.

Laura acompanhou a saída de Moacir do final do corredor do apartamento. A porta da rua fechou-se. Fez um barulho mais intenso em sua mente, encerrando ali uma história de 21 anos.

Moacir pegou o elevador. Olhou-se no espelho. Ajeitou a barba. Na sua expressão era possível ler a decisão acertada. O desleixo, as queixas freqüentes, sim, poderia perdoar. Mas traição era dose mortal para o seu orgulho.

Laura correu até a janela para vê-lo tomar o táxi, que não demorou. Moacir não ficaria na casa da mãe ou num flat. Seu destino era o aeroporto. Voltaria de Nova York dali a cerca de dois meses. Distração e muitas compras fariam parte do roteiro.

O táxi sumiu rápido, virando a esquina. Laura suspirou e sentou-se à mesa da sala com a mão no queixo. Sentia desgosto e inveja. Miserável! Nem havia perguntado se ela queria um perfume importado ou uma maquiagem, pensou, sem a noção exata do desligamento que acontecera. Olhou para o relógio. Levantou-se arrastando as sandálias e foi até o telefone:

- Ele já foi.

- Onde nos encontramos?

- Aqui. Na minha casa.

- Laura, querida, ele acabou de sair...

- Nem me importo! Ele é egoísta, não merece mesmo qualquer tipo de consideração.

- Então, tudo bem. Estarei aí em 15 minutos.

Laura dirigiu-se ao quarto. Olhou com raiva para a foto do casal num porta-retrato de alumínio. E com raiva ainda maior para as lavandas baratas sobre a cômoda.



Ingrid Dragone

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