28 dezembro, 2007

Novo ano, velhos pedidos...

Então, reveillon... E a gente veste branco. Come lentilha. Pula sete ondinhas. Faz contagem regressiva. Agradece por tudo de bom, e pede mais saúde, paz, um novo ou grande amor, e dinheiro, claro!

É tempo de esvaziar gavetas e compartimentos da casa, do escritório, da cabeça. Jogar fora aqueles recibos, notas fiscais, comprovantes. Rasgar bilhetes, antigos pensamentos... Doar roupas, sapatos, devolver coisinhas emprestadas... Comprar agenda, e começar a enchê-la (inaugurando a caneta que ganhamos de presente no Natal) com os próximos compromissos. E estes já correm as páginas até mais ou menos o meio do ano.

Engraçado, como diz a letra de uma música “... nada mudou, mas eu sei que alguma coisa aconteceu, tá tudo assim, tão diferente”. Toda vez que o mundo faz aniversário, pensamos novo, e o ciclo do tempo continua, inabalável... Sem importar-se com calendários, relógios e seus ponteiros metódicos.

Não há uma barreira entre o ano que foi, e o ano que é. Não há um muro de concreto entre dezembro e janeiro. Criamos a determinação do tempo, e nos prendemos a ela. Acabamos por conceber a vida assim, como um conjunto de períodos estanques. Então, a cada virada de ano pensamos em mudanças, pequenas e grandes revoluções e atitudes. Planos, sonhos, projetos, desejos começam a fervilhar. Mudança de um dígito, mudança de vida?

Mais um ano, e a gente quer sentir que tudo pode acontecer de outra forma. Deve ser porque o homem tem complexo de fênix, necessidade de renascer, de transformar-se para melhor. Talvez queira ter a sensação de que é dono do seu próprio destino, arquitetando dias seguintes e modificações. Ou simplesmente necessite de ritos de passagem para achar que está evoluindo, crescendo, ultrapassando fases...

Mas se pensarmos... Novo ano, velhos pedidos! As mesmas vontades de felicidade, antigos desejos em outras roupagens. Desde que me percebo, as pessoas desejam sempre as coisas de sempre... Novas palavras sobre velhos temas. Queremos coisas boas, apenas as desejamos de maneiras diferentes. A verdade é que, o romper de um tempo e o surgir de outro, desperta asas, espadas e corações em cada um.

Os próximos doze meses se engatilham. E apesar de todo ensaio, toda pauta, ainda com toda a força humana que temos para tornar nossos ideais uma realidade, é inevitável: com olhos-súplica, nos voltamos para o céu (mesmo os mais valentes!) e entregamos tudo, uma encomenda preciosa, às mãos divinas pensando “seja o que Deus quiser!”.


Ingrid Dragone


26 dezembro, 2007

Vestígios



Pi pi pi pi. Faço um movimento preguiçoso até a mesa de cabeceira. A mão quase não chega. Mensagem no celular.“Bom dia!”

Quero continuar dormindo. Viro para um lado. Para o outro. Já despertei. Levanto de vez (pisando em papéis de presente laminados). Afinal, hoje tem trabalho acumulado.

Café da manhã é sinônimo de panetone.

E para o blog? Esse texto assim... sem graça, ressaqueado do Natal.




Ingrid Dragone

25 dezembro, 2007

Mensagem de Natal (mensagem para a vida)


É clichê. É inevitável. É eterno. Então, vou desejar a todos:
FELIZ NATAL!!!



Vamos aproveitar essa época, em que estamos mais sensíveis e introspectivos, para firmar em nosso íntimo o divino compromisso com o amor. Lembrar que a vida pode ser linda, inesquecível e maravilhosa se dedicarmos bons sentimentos ao que nos propusermos a realizar.

Será também muito interessante fazer menos queixas em 2008. Quando nos percebemos ranzinzas, devemos lembrar da nossa manta de bênçãos. Do nosso universo burguês. Lembrar de quem não é lembrado. De quem não tem água e pão. De quem padece sem chance de cura. De quem testemunha os horrores de uma guerra.

Vamos brindar a dádiva das possibilidades!!! Preparar as nossas emoções para extrair da vida os melhores sorrisos. Os melhores resultados. As melhores tentativas. As melhores valsas. Os melhores carinhos. É triste viver do arrependimento pelo (a)braço negado e pela palavra não pronunciada. A felicidade habita em quem não teme o dom de servir e a sinceridade do coração.



Ingrid Dragone


23 dezembro, 2007

Acordar de Novo


Abri os olhos. O esperado teto branco não foi o que encontrei. Vultos com asas borboleteantes voavam diante da minha face. E, combinados, cessaram o movimento. Inacreditáveis anjos! Acordaram-me e não deixaram que eu tocasse os pés no chão antes de saber umas palavras bordadas de estrelas.

Abriram as minhas mãos. Coloram-nas em posição de guardar. Depositaram pergaminhos. Todos escrevinhados com o mesmo aviso. Avisaram-me sobre a importância do meu coração. Falaram-me dos cuidados, para que eu não permita que alguém o faça minguar.

Os anjos abriram a janela do meu quarto e mostraram-me a vida acontecendo lá fora. A luminosidade esplendorosa do sol sobre todas as coisas vivas e de concreto. A vida repleta de experiências felizes, justas aos meus sonhos.

E quando o sorriso tornou-se capaz de emoldurar flores em meu rumo, os anjos sinalizaram a partida. Recomendaram-me a leitura dos pergaminhos todos os dias. Saíram em vôo enfileirado, seguindo a direção do vento e deixando um rastro suspenso de brilhos miudinhos e efêmeros.

Ao tocar os pés no chão, eu já era nova pessoa. Nova para o mundo, nova para os outros, e para mim. Tantos pensamentos gravitaram ao meu redor... E todos me levaram a entender o valor de fazer diferente. Senti, então, o meu coração alargando-se para o bem. A leveza. O pulso novo. Sensação indescritível de estrada intocada. Recomeço...


Ingrid Dragone


22 dezembro, 2007

Meu Melhor Presente de Natal


O meu coração, neste Natal, não almeja uma casa enfeitada com guirlanda, ou árvore, ou luzes, ou velas. Nem almeja uma ceia farta. O que ele quer é estar aconchegado no quentinho dos braços daqueles que ama.

O meu coração quer sorrir pela presença de pessoas especiais. A mágica estará na beleza de um olhar sincero, que derrama em poucos minutos a imensidão de emoções que a boca demoraria horas para dizer, e as mãos demorariam meses para escrever.

O meu coração, neste Natal, não sabe quem irá bater à sua porta. Mas sabe o quanto de amor tem a oferecer para aqueles que o tocarem.

Meu coração desconhece a ordem de nada esperar. Vai viver a tentativa de serenar as suas expectativas, tão ainda parecidas com as da época em que se acreditava em Papai Noel.

Meu coração, neste Natal, quer sentir-se ligado a outros corações. Trocar energias iluminadas. Transformar em canção todas as notas que muitas vezes ensaia sozinho.

Meu melhor presente de Natal é o meu coração batendo feliz. Cheio de amor para quem ele ama e para quem a ele der amor. Cheio de carinhos caprichados, como que amarrados em belas fitas de cetim.

Meu melhor presente de Natal é aninhar em meu coração um monte de sonhos bons. Esses sim, estarão enfeitados, lindos, lindos de se sonhar. Enfeitados com um brilho mais intenso. Com uma força grandiosa. Com o cuidado de não fazer sofrer. Com a magia de entender o gesto e a palavra que afaga um coração ferido. Com a magia de saber compartilhar a alegria com outro coração alegre.


Ingrid Dragone


21 dezembro, 2007

Revista Bahia Chef


Nesta quinta-feira, dia 20, foi lançada em Salvador a revista Bahia Chef, especializada em gastronomia. O evento de lançamento realizou-se no restaurante Amado e contou com a presença de jornalistas, profissionais da área gastronômica e empresários.

Faço parte da equipe de reportagem e posso dizer, embora seja suspeita, que o trabalho está muito bonito: conceito e projeto gráfico.

Confiram a entrevista que eu fiz para essa primeira edição.


“Cozinhar é como fazer música”


Luiz Caldas é natural de Feira de Santana, Bahia. Teve os primeiros contatos com instrumentos musicais na infância. Cresceu assim, acompanhado da música, tornando-se conhecedor de muitos ritmos e hábil tocador, principalmente de violão. Baseado em toda essa experiência, criou um estilo musical e coreografias. Fez sucesso em todo País com o que pode ser considerado o início da Axé Music. Durante alguns anos, esteve afastado da mídia, embora nunca tenha ficado longe dos palcos. Há três anos, juntamente com a retomada da carreira musical, adotou uma nova filosofia de vida. É praticante de yoga e naturalista. Em uma conversa descontraída com a equipe de reportagem da Revista Chef, o artista fala sobre essas mudanças e alimentação saudável.


Por Ingrid Dragone


Revista Chefe - Desde quando você é naturalista?

Luiz Caldas - Há três anos. Depois do swásthya yoga passei a ter mais calma, mais paciência, equilíbrio. Foi uma mudança geral. Hoje, eu durmo e levanto sabendo que nenhum animal precisou morrer para que eu me alimentasse. E eu me alimento bem.


RC - Por que você resolveu ser naturalista?

LC - Parei de comer carne, primeiro, pelos ásanas (posições do yoga). Cada uma requer força e equilíbrio e sentia, pelo menos psicologicamente, que a minha alimentação não fazia bem para isso. O segundo motivo veio da conscientização sobre a morte dos animais. O homem não nasceu para ser carnívoro. Isso é uma cultura colocada. Se você não consegue caçar, não tem dentes e nem garras, para conseguir determinado alimento é porque ele não é a sua comida. Se você der uma fruta e uma carne para uma criança, ela escolhe comer a fruta. Vi documentários sobre os maus tratos a animais, o que também pesou bastante na minha decisão.


RC - Parar de comer carne foi difícil?

LC - No começo, tentando purificar meu organismo, comia legumes e carne branca. Depois pensei: carne branca é carne. Parei sem neura. A carne, em si, não tem gosto. Os temperos dão o gosto. O cheiro da carne já não me atrai em nada. Vejo que posso comer outras coisas. Sempre fui muito de mudanças radicais. Quando resolvo parar, paro total. Foi a mesma coisa com o cigarro. Digo que Deus me deu essa força.


RC - Quais mudanças você notou em seu corpo, em sua vida, tornando-se naturalista?

LC - As primeiras mudanças ocorreram na concentração e no estado de leveza corporal. Quando você come menos, vive mais e melhor. Antes, nos shows, sentia como se estivesse carregando outra pessoa. Agora, cantar e tocar é tranqüilo. Além de mudar a alimentação, com os exercícios de respiração já corro 15 quilômetros sem me esforçar e passar mal.


RC - Existe uma alimentação especial para os dias de show?

LC - Tomo um pouco de água gelada antes e cerveja sem álcool depois. Como frutas, saladas, um sanduíche preparado em casa, um suco, um queijo branco. Tem gente que quer mudar os hábitos alimentares e procura coisas difíceis para se adaptar. Eu não. Só não como carne. Ainda consumo ovo e leite, mas vou parar.


RC - Você tem um programa de alimentação?

LC – Tomo água quando acordo. Logo depois, um suco. O sono me alimenta legal e não tenho horário para comer. Como quando tenho fome. A fome está ligada ao cérebro. A comida é remédio. Ela te cura ou te mata. Você não precisa ficar cheio. Esse é um falso prazer que a mente nos dá.


RC – Você diz que a comida é remédio...

LCChamamos de veneno o que nos mata rapidamente. E de alimento o que nos mata a longo prazo. Com uma alimentação saudável, bem balanceada, você já está cumprindo o papel dos médicos. Só precisa ter um clínico geral para dizer se está tudo normal. Hambúrguer, por exemplo, é resto de gado, com o que as indústrias criam uma carne. O processo é feio e no final você vê a comida naquela embalagem bonita.


RC - Você prepara seus próprios alimentos?

LC - Adoro cozinhar. Minha preocupação também é com o visual do prato. Você começa a comer pelos olhos. Sou vidrado em comida colorida. E gosto de experimentar, da mistura. A maior parte das experiências dá certo, e todas são comestíveis. Na época das vacas magras eu criava farofas interessantes. Cozinhar é como fazer música. Tem o cara que sabe dois acordes e faz músicas belíssimas. E tem aquele que faz conhecendo profundamente.


RC - A música é um grande prazer na sua vida. A comida também é?

LC - Não trato alimento como algo especial. O alimento é como a música. É uma questão de harmonia. Tenho prazer em comer, mas não é um prazer orgástico. Como chocolate, salgadinho, tudo. Minha restrição é com carne, drogas e álcool.


RC - Você tem preferência por alguma culinária?

LC - A cozinha indiana é interessante porque não tem muita carne. Conheci muitos pratos nos livros. Pelos ingredientes você vê se é receita é boa. Você também pode colocar ou tirar um ingrediente e mudar o sabor. Eu diminuo o sal ao máximo. Quando comecei a praticar yoga comecei a ler sobre alimentos. Muitos dizem que não é bom misturar, por exemplo, alho com cebola, e nem tomar líquidos enquanto se come.


RC – Recentemente você foi convidado por uma pizzaria conhecida de Salvador para criar uma pizza que levaria o seu nome no cardápio. Como foi a experiência?

LCAntes eu pensei e fiz uma em casa. Depois o pizzaiolo fez lá na pizzaria e eu acompanhei o processo, experimentando e aprovando. A pizza tem uma massa fina e leva palmito, champion, e pouquíssimo requeijão, o mais esfarinhado possível.


RC – Para acompanhar uma pizza ou qualquer outro prato, qual a melhor música?

LCA tranqüila, de elevador. Música baixa, pano de fundo, para que você possa conversar. Todo tipo de música é boa. Depende do momento. Claro que há a preferência, o que não quer dizer que uma é melhor que a outra. Existe o olhar do bom gosto e o olhar acadêmico. Há músicas simples com melodias lindas. Há músicas que são como uma mansão em cima de palafitas.




Nos bastidores.

20 dezembro, 2007

Convite


Olhares trocados. Todo o mundo ao redor torna-se uma grande mancha. Silêncio. Depois a música. Ele estende a mão e sorri. Apenas. Ela pousa a mão, aceitando, e sorri. Apenas.

A música embala o movimento dos corpos, que aos poucos se transformam em um único. Fusão de desejos. Calor. Frio na espinha.

A sensação alonga-se muito. Por dentro de muitas e muitas canções.

Nada se diz. Não é preciso dizer. Rostos casados. A boca escapa lentamente chegando à boca oposta. Ela foge. Ele pede. Sem palavras.

Olhares. Silêncio. Tudo calado em um beijo. Tudo dito em um beijo.

Nasce um par. Um encantamento. Uma poesia, que em voz pouco expressa. Que em sentimento percorre os bosques e labirintos dos corações.


Ingrid Dragone

19 dezembro, 2007

Separação


Nada mais havia para ser dito. As malas estavam sobre a soleira da porta. Moacir terminava de abotoar a camisa bem passada. Laura olhava para ele com olhos de um sentimento misturado. Uma combinação de alívio e tristeza. Continuado silêncio... Sem mais, ele fez uma afirmativa com a cabeça de forma que ela compreendesse um “pronto, estou indo”.

Laura acompanhou a saída de Moacir do final do corredor do apartamento. A porta da rua fechou-se. Fez um barulho mais intenso em sua mente, encerrando ali uma história de 21 anos.

Moacir pegou o elevador. Olhou-se no espelho. Ajeitou a barba. Na sua expressão era possível ler a decisão acertada. O desleixo, as queixas freqüentes, sim, poderia perdoar. Mas traição era dose mortal para o seu orgulho.

Laura correu até a janela para vê-lo tomar o táxi, que não demorou. Moacir não ficaria na casa da mãe ou num flat. Seu destino era o aeroporto. Voltaria de Nova York dali a cerca de dois meses. Distração e muitas compras fariam parte do roteiro.

O táxi sumiu rápido, virando a esquina. Laura suspirou e sentou-se à mesa da sala com a mão no queixo. Sentia desgosto e inveja. Miserável! Nem havia perguntado se ela queria um perfume importado ou uma maquiagem, pensou, sem a noção exata do desligamento que acontecera. Olhou para o relógio. Levantou-se arrastando as sandálias e foi até o telefone:

- Ele já foi.

- Onde nos encontramos?

- Aqui. Na minha casa.

- Laura, querida, ele acabou de sair...

- Nem me importo! Ele é egoísta, não merece mesmo qualquer tipo de consideração.

- Então, tudo bem. Estarei aí em 15 minutos.

Laura dirigiu-se ao quarto. Olhou com raiva para a foto do casal num porta-retrato de alumínio. E com raiva ainda maior para as lavandas baratas sobre a cômoda.



Ingrid Dragone

18 dezembro, 2007

Auschwitz


Auschwitz. Estava escrito na capa do filme. Ela sabia bem do que se tratava, afinal, havia trabalhado, e muito, com o assunto durante a faculdade. Mas diante da pergunta de um homem tão inacreditavelmente próximo e inconcebível, às vezes ela não sabia o que dizer, como agir, nem reconhecer o mundo, até então, totalmente legendado.

Pelo mesmo motivo, também naquela noite, havia derramado a comida na mesa do restaurante; deixado o salto enganchar numa das imperfeições do piso; ficado com as mãos geladas e a mente zonza. Ele era íntimo. Muito. Ele era mistério. Também.

Aquele homem que olhava em seus olhos e decifrava a lucidez e as insanidades da sua alma. Aquele homem que sabia a hora e a forma de tocá-la, passando por cima de uma pretendida vontade de estar serena, quieta. Aquele homem que quase sempre dispunha da palavra ideal. Era o homem que provocava nela um sentimento forte e engangorrado de fascínio e pavor.

Uma incógnita. Uma antítese. Ele parecia representar tudo o que ela gostaria de somar em um homem. E, ainda, era alguém de quem deveria escapar: um pouco por causa dele, que sabia cercar, e que pela forma apaixonada tornava-se irresistível e perigoso. E muito, e principalmente, pela incerteza de uma história a dois.

Se pensava em casa, sozinha, a decisão estava tomada. Desligar-se. Se estava ao lado dele, esquecia o significado de decisão. O vigor, o calor e a inteligência daquele homem arrebatavam seus sentimentos e sentidos. O comportamento, outrora alinhado ao controle dos impulsos, inexistia.

Auschwitz. Ela deveria ter escolhido assistir ao filme. Tema de tamanho interesse, e nada excitante para as coisas do amor, talvez tivesse impedido que mais uma vez caísse nos braços exatos daquele homem. Um momento de paixão. Uma vida de doces tormentos.



Ingrid Dragone

17 dezembro, 2007

As Latas


Inerte. De mãos apertadas. Estava sendo acusada de ter jogado todas as latas no lixo.

- Não havia mais nada! Só agora se deu conta? – perguntou Nailin.

E continuou a receber a reclamação. Afinal, na casa, só moravam duas.

- Como assim? Encomendei uma dúzia delas! Não faz um mês! – esbravejou Falandra.

Nailin já perdia a paciência. Sentada com os braços cruzados, respirou fundo, deu com os olhos para cima, enquanto ainda ouvia.

- Além das latas, o que mais você jogou fora, hein?

- Nada, Falandra, nada...

- Onde está o calendário?

- Você deu ao mago.

- E o meu caldeirão de estimação?

- Estourou no seu último feitiço.

- Está variando? Quebrei o meu caldeirão?

- Foi sim. E também se desfez da capa roxa, da varinha vinda da Terra de Naz, e deu os cinco primeiros volumes da coleção de bruxaria para iniciantes.

- Como pode mentir dessa maneira?

Nailin levantou-se enérgica. Saiu batendo a porta. E Falandra enchia as paredes com suas queixas.

No jardim, pensativa, Nailin encontrou um dos seus vizinhos.

- O que houve?

- É a Falandra... Está procurando um monte de coisas, e não acha, e reclama. Coitada! – disse balançando a cabeça, lamentando imensamente. Depois dos seus estudos na Terra de Naz... Ficaram seqüelas. Agora está aí, desesperada, procurando pelos seus pertences, principalmente pelas latas.

- Por quais latas?

- Aquelas que você me aconselhou a comprar para ela, as de memória em conserva.


Ingrid Dragone

14 dezembro, 2007

Coração Atento


Tantos “nãos”... E, às vezes, o coração está na infância. E quer chorar. E sofre. Os “nãos” descem ásperos. Dilaceram o que construímos: uma imagem, uma vontade. É a porta se fechando. Os braços que não se movem para afagar a nossa angústia. É como esperar por um carro que nunca surge. Olhamos para a rua, que se alonga muito, até sumir, e nada acontece. Ninguém toca em nosso ombro. Nem para um “vai dar tudo certo”.

Temos sede de mundo, de conquistas. As pessoas não podem ou não querem compreender. Assim, devemos estar sempre acompanhados de nós mesmos. E só. E deve ser assim. Esse é o ensinamento diário.

O ser humano aprende que deve dividir, ajudar, amar ao próximo como a si mesmo. Mas a coletividade é um caminho inevitável para a troca, para que o íntimo de cada um tenha uma resposta, a sua satisfação. Por isso é frustrante viver a espera. Pensar que alguém vai lembrar de nós, quando mais necessitamos da lembrança.

Tantos “nãos”... O coração deve estar atento! Mais triste do que ver a porta se fechar, e experimentar os braços egoístas, é não enxergar o carro que desponta naquela rua deserta. Aquele, justamente aquele, guiado por alguém que gostaria de viver um sonho como o nosso.

Ingrid Dragone

13 dezembro, 2007

Amor de Guerra


Hoje, viver um amor pode ser como viver um amor de guerra. O seu par existe, mas está na batalha, na rude batalha do dia-a-dia. Você não vê a pessoa amada, o bravo soldado, que de forma destemida luta pela vitória sobre o inexorável inimigo: o tempo.

Seu sentimento vai ficando doído demais. A saudade implacável é tudo que ronda o seu pensamento em quase todos os minutos. Insólita saudade. Ninguém, em todo o mundo, sofre a dor que você sofre.

Horas passam. Dias passam. Semanas passam. O amor torna-se incorpóreo. A distância só não se instala completamente porque há algum contato pela internet ou telefone. Algo semelhante às cartas trocadas entre os combatentes e as donzelas esperançosas em época de grandes guerras.

Horas passam. Dias passam. Semanas passam. A saudade vai sendo transformada. Abranda-se. A paixão assenta. Algo em você desacelera. O par, na batalha, sente imenso amor, mas vive sem possibilidades reais de toque, presença.

Então, a bússola interna avisa que você pode seguir outras rotas. O pensamento em você te faz querer conhecer o que está além das margens sinalizadas pelo relacionamento que se esvai. Você pensa na injustiça da sua solidão. E chega à conclusão de que viver apaixonado por uma saudade é muito cruel.

Você é instigado por uma certeza. A da transitoriedade das coisas. Já não quer a ilusão, porque viver a pele e a palavra de carinho é uma necessidade vital, fisiológica, até.

Um dia, a batalha cessa. O guerreiro se prepara para voltar, carente de paz. Carrega no peito a honra de ter sobrevivido, embora esteja ferido, triste, cansado. Vai precisar de alguém que não tenha muito a dizer, mas carinho de sobra para confortar. E quando retorna, percebe que você já não tem os mesmos planos.

Nova história será escrita. Movida por uma realidade cada vez mais comum... Se conflitos bélicos têm o poder de destruir sonhos, os conflitos cotidianos conseguem ser ainda mais eficazes nisso: selam uma distância inaceitável, separando pessoas que moram na mesma cidade, em bairros próximos.



Ingrid Dragone


07 dezembro, 2007

Saudade


Quando há uma pausa, mínima que seja, na correria do dia-a-dia, pensamos na saudade que sentimos da nossa família e amigos. Pensamos até na saudade de nós mesmos.

Às vezes vem uma saudade que nem tem tempo para ser sentida direito. Aquela saudade que preenche alguns segundos do cotidiano. Que bate, de verdade, se nos percebemos sozinhos numa manhã de domingo. Sintomático. É a Saudade já indicando que estamos isolados das pessoas, das rodas, das trocas.

Se deixamos a saudade tomar conta, vem saudade de um monte de coisas. Do papo jogado fora com aquele amigo que só nos faz rir. Da sobremesa sem igual que a tia faz. Do beijo de alguém. Do período do colégio. Da época de brincar. Saudade que a gente tem da época de sentir saudade.

Sentir saudade era tão bom... Antigamente, ninguém achava que era perda de tempo. Havia reuniões para sentir saudade. Nas varandas, com vinhos, fotografias, e gente próxima. Eram momentos para reviver. E todos nós somos mesmo feitos disso: história.

É bom sentir saudade. Sentimos saudade se gostamos verdadeiramente de uma pessoa. Se temos “causos” para registrar. Se a vida está sendo vivida.

E é saber a dose. Tudo tem o seu lugar. Saudade demais pode ser depressão. De menos, sobrecarga de tarefas. Saudade na medida, sim. É aquela que nos move a chamar alguém interessante, especial, para conversar sobre acontecimentos de tempo qualquer.

Ingrid Dragone


06 dezembro, 2007

As Mesmas Notícias


Apesar do bombardeio de notícias que chegam todos os dias às redações, os jornais têm fechado as suas pautas com os mesmos assuntos frequentemente. Impressos de regiões com culturas distintas costumam trazer matérias bem parecidas. O fenômeno pode ser explicado por dois fatores: o trabalho das assessorias de imprensa, juntamente com as estruturas enxutas das empresas jornalísticas; e a concorrência desenfreada, orientada por questões econômicas.

As redações contratam um número mínimo de profissionais e exigem alta produtividade. Sem o tempo necessário para apurar os acontecimentos, muitos jornalistas utilizam os press-releases enviados por assessorias de imprensa, alterando nada ou quase nada naqueles materiais. Assim, multiplicam-se as notícias padronizadas e sem criatividade nos meios de comunicação. Se a lógica da indústria de notícias segue a máxima de que “tempo é dinheiro”, já não importa mesmo a similaridade.

Além disso, assim como quaisquer empresas, as jornalísticas também defendem seus interesses econômicos. Vivem sob pressão. Seguindo as regras de administração comuns a corporações de outros ramos, não querem despender mais recursos para a formação de equipes maiores, o que facilitaria a produção de matérias diferenciadas, com o foco na região em que esses meios atuam. E não dá para fugir: notícia é produto! Tem de vender. Os jornais não podem perder leitores (leia-se consumidores), patrocínios, anunciantes. Dessa maneira, sem muitos profissionais e tendo a missão de permanência no mercado, acabam por noticiar o assunto que estampa a capa do concorrente. Aquela velha história: “Só tem tu, vai tu mesmo”.

Então, hoje, critérios importantes de noticiabilidade, como relevância dos fatos e interesse público, nem sempre são priorizados na hora de selecionar o que deve ser publicado. Muitos jornais não levam em consideração os acontecimentos que influenciam diretamente a vida do leitor local, e dão destaque às notícias ligadas aos grandes centros de poder, como Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro. Será que o nordestino desempregado tem mais interesse no assalto ocorrido no bairro nobre da cidade maravilhosa, ou no aumento da cesta básica no Estado onde vive?


Ingrid Dragone


04 dezembro, 2007

Conversar? O que é isso?


Em mil novecentos e nem me lembro mais, dançar era pré-requisito. Se o cara não soubesse ou, pelo menos, não se arriscasse, nada feito: ficava sem a mocinha. Bailes eram a sensação. Roupas novas. Cabelos alinhados. Existia uma mágica... Dois passos. Uma palavra. Muitos passos. Algumas histórias para contar. Naqueles momentos especiais os jovens tinham a oportunidade de conhecer alguém interessante, para viver algo além de uns minutos de diversão.

Hoje? Dançar? A sensação de tocar na mão? Do rosto colado? O romantismo está caducando. E conversar? Tornou-se mesmo coisa do passado. As pessoas não lêem. Não têm argumentos nem informação. Então, a conquista não acontece pelo o que elas podem oferecer às outras de mais profundo e humano. O ato da conquista é o de mover-se para tirar algo do outro. Um beijo. Fugacidade...

Nas noites das grandes cidades é fato corriqueiro: os homens aproximam-se cheios de mãos. “Laçam” por trás. Puxam pelos cabelos. Beijam sem perguntar o nome. E não vamos aqui inocentar as mulheres. Agora, a maioria só pensa em silicone, na chapinha, e em estar fashion. Além disso, acredita que a conquista do espaço feminino no mercado de trabalho, nas relações sociais e no poder dá à mulher o mesmo direito de grande parte dos homens: o direito de ser canalha e manter relacionamentos descartáveis, supersuperficiais (isso não é um erro de digitação!).

O lance é chamar as amigas para a “balada”, providenciar um “look” com muito brilho, curtir funk, tomar Red Bull. E só. O problema é esse: a restrição. E assim caminha a humanidade... Com a idéia de que estão aproveitando a vida, homens “pegam”, e mulheres se deixam “pegar”. E vice-versa.

Está socialmente estabelecido. Desejo acima de tudo e compromisso zero. Educação zero. Bom senso zero. Auto-estima zero. Juízo zero. Conhecimento zero. A soma é fácil. No final, o que resta? Nadinha. Um vazio que não é preenchido com outras festas, outros beijos, outros parceiros, outros nada-a-dizer.

Por que gostar de se divertir e curtir o momento é sinônimo de não ter conteúdo? Por que gostar de se divertir é não gostar de ninguém? E, às vezes, não se gostar? Carpe diem, sim! Fazer brindes à instituição do “ser raso” já é demais...



Ingrid Dragone


03 dezembro, 2007

Ataque Mortal


Eram trinta bailarinas. Ensaio cansativo para o musical de dezembro. Marcação dos lugares exatos na coreografia. Marcação de braço e cabeça em frente aos espelhos. Tudo para sincronizar, para obter a perfeição do grupo, dos passos. Em meio a tanta concentração, de repente, surge na sala de dança um enorme, horripilante, e inacreditável dragão.

Ele entra pela janela e alça vôos rasantes. As bailarinas desesperam-se, começam a gritar e correm para um dos cantos do ambiente, ao lado do piano. E o dragão ganha a cena. Desloca-se de um lado para o outro, dono da situação, assustando, matando de medo.

E quando tantos berros de agonia já parecem ter acabado com o importante ensaio, uma das bailarinas revolta-se e tenta resolver o problema-de-asas. Pega os pares de sapatilhas espalhados pelo chão e passa a atirá-los em direção ao aterrorizante monstro. As colegas surpreendem-se com tamanha coragem. Tanto pela admiração, quanto pela comodidade, fazem torcida para que o ataque seja mortal, incentivando: “Muito bem! É isso aí”.

Depois de inúmeras tentativas, a bailarina corajosa está muito cansada e vê que seu esforço é em vão. O dragão não fez o mínimo movimento. Preso ao teto, alheio ao som das músicas, aos gritos, ao ataque das sapatilhas voadoras.

Metade do corpo de baile já havia fugido desesperada da sala de dança. Muitas por pavor, simplesmente. Outras, com a intenção de pedir ajuda a um homem. Após cerca de vinte minutos, finalmente um dos atores da companhia aparece no recinto. Ele abre a porta com energia, atrai todos os olhares, e veste o personagem do herói. As bailarinas ficam saltitantes, sorriem esperançosas, e clamam o seu nome entusiasmadíssimas. O ator coloca-se em pose de poder. Com uma escada de alumínio embaixo do braço, estufa o peito e esbraveja. “Meninas, não se preocupem! Irei salvá-las!”.

Vai ao centro da sala. Posiciona a escada. Sobe os degraus com passos firmes, fazendo barulho. Todas olham com muita expectativa. Bom ator, ele monta uma cara de “problema-solucionado”, ajeita as mangas, e dispara um líquido fatal nas costas do monstro. “Basta!!! Ser indigno, barata medonha!”.


Ingrid Dragone