15 novembro, 2007

O Leão de Pelúcia e a Bailarina da Caixinha de Música


Conta a lenda que, num entremundos além do imaginado, o Leão de Pelúcia conheceu a Bailarina da Caixinha de Música trocando mensagens em garrafas lançadas ao mar. Eles esperavam a madrugada para tecer palavras e mais palavras... Até o amanhecer...

Datas se passavam. As correspondências não tinham tempo de cessar. Eram muitas em um só dia.

O leão, poderoso, um rei, e todo ciente de si, sabia da poesia que faria a bailarina feliz. Com magnitude e força e, ao mesmo tempo, doçura, ele a tomava a cada expressão escrita, a cada letra de música grafada. O leão, que tinha o caráter do invencível, que cerca a vítima, que sabe como e em que ponto atacar, prendendo em garras o ser indefeso, era música e mel.

A bailarina, meiga, uma fada, e toda em modos de carinho, sabia que o leão, apesar de robusto, precisava de atenção e afagos. Com graça e sensibilidade e, ao mesmo tempo, astúcia, ela o encantava pela fragilidade e beleza, embora não reconhecesse tamanha beleza em si – e talvez isso a fizesse mais rara. A bailarina, que prezava pela perfeição de cada passo, que antes ensaiava gestos, era asa e maçã.

E não havia mais como manter a distância de um mar. Os corações estavam imantados. O leão queria ser de verdade, dar o calor de que a bailarina precisava. Queria sentir-se vivo, porque ela o fazia pulsar de novo. A bailarina estava sem palco. Seu adágio era solitário. Ela queria uma caixinha de música para dançar e acreditava que a caixinha fosse o peito protetor e fiel do leão.

O encontro foi no cais do mundo de cá, o da bailarina. Porque o mundo de lá, o do leão, vivia em guerras. Ele a protegia, não deixaria que se machucasse. E não só houve o cuidado, mas a cura, e para ambos. O abraço e o cheiro. Em tudo foram felizes.

- Minha pequena... Você é linda... Terá em mim todo o amor que quiser, é só pedir. Se me olha e sorri, nada em meu coração posso controlar.

- Meu bichinho dos olhinhos carentes... Como isso tudo foi acontecer? Eu fico brincando em seus sonhos e você brincando nos meus... Olha, amo você. Muito. Daqui até plutão.

- Plutão é perto para o meu amor...

O leão agora tinha o sentimento para aquecer. A bailarina agora tinha a caixinha para dançar. Mas... Essa é a história de um amor impossível... Eram tudo em amor e nada em realizações para o depois. O mundo de cá não se afinava com o mundo de lá. Cada mundo com suas conquistas, suas fronteiras. O sentimento cresceu e esbarrou numa tristeza imensa, que não mais imensa foi porque o leão e a bailarina se permitiram amar, simplesmente pelo amor. O amor, impossível... E as mensagens em garrafas nunca deixaram de ser lançadas ao mar...


Ingrid Dragone

3 comentários:

Anônimo disse...

Amor impossível....sempre temos um guardado dentro de nós....eu mesmo tenho um!
Mas ele n é lindo pq é impossivel, mas sim pela sensibilidade e verdade que o faz existir e permanecer dentro de mim...de nós...
A cada dia que passa seus textos tem desvendado lacunas dentro de cada um que os lê.
Obrigado por nos tornar melhores por seu encanto!
Bjs...
Luiz

Enoque Lopes disse...

Sem comentários...
Você vai lá dentro, onde às vezes, nem eu mesmo consigo chegar.
Bjos!

Clarissa disse...

Que louca essa história de escrever blogs, não é mesmo?
Começa como uma coisa despretenciosa e em algum momento descobrimos que o que trazemos no nosso íntimo pode ser parte das experiências de vida do outro também.
Alguns já foram Leão... outros bailarina... e alguns trazem os dois dentro do peito...
Parabéns pelo texto, e pela coluna!