31 outubro, 2007

Impaciência?


Muita impaciência. Muita. É. Eu tinha. Coisa de quem já acorda pilhado, querendo resolver o mundo em vinte minutos. E um dia, quando olhei ao meu redor (papéis, prazos estourados e computador quente) e olhei para mim (dor de cabeça, stress, coceira e gastrite), parei tudo! Levantei-me da cadeira. Tomei um copo de água. Pensei: a impaciência ainda me mata...


A impaciência espanta o poder de discernimento. Espanta o poder de concentração. Espanta as pessoas, inclusive as que poderiam nos ajudar. Faz com que não tenhamos as reações ideais. Maximiza os problemas e nos cega. Leva ao desentendimento e, às vezes, à desistência.


Então... O negócio é inspirar e expirar... 1, 2, 3, 4, 5... 10! Onnnnnnnnnnnnnnnnnn... Ah! Rir um pouco da tragédia também faz parte. Relaxa e confere novo ânimo.


O exercício da paciência garante autocontrole. É qualidade dos sábios. E não significa aderir ao estado de passividade. Jesus, por exemplo, grande líder. Forte, coerente e... Paciente!


Vamos pensar! Nossa era é caracterizada pela síndrome do ‘não tenho tempo’. E quase nada contribui. A inadequação dos espaços físicos, aliada ao crescimento populacional, e a exigência por cada vez mais informações e afazeres monta em nós uma bomba-relógio. Visualizamos de três a cinco mil anúncios por dia. Enfrentamos engarrafamentos. Pegamos filas no banco, no mercado, no restaurante a quilo, no cinema. Para tudo existe senha. Esperamos (sempre) o médico, o ônibus, a vaga. A agonia é perseguidora, através das horas, e do celular, que nos acompanha até no momento de comprar um pão...


E por falar em celular... Se ligarmos para cancelar uma conta em qualquer operadora e não tivermos vontade de xingar a pobre mãe do atendente, aí sim! Estaremos experimentando o nível mais elevado do exercício da paciência.


Ingrid Dragone


30 outubro, 2007

Dia-a-dia

A fase é outra meu amor

A frase toda é muita dor

E o amor que eu sabia

Era uma folha de papel

Era uma folha de outono

Na confusão de um carrossel...


Essa janela tá aberta

A vida tá toda lá fora

A vida tá como uma bola

Rolando na rua de pedra


Os pequeninos nada sabem

Fazendo voltas ao pião

O sentimento tô sentindo

No olho de um grande tufão


Dez varandas coloridas

Os baldinhos de areia

Os varais das Margaridas

E eu cultivo minhas teias


Essa janela tá aberta

A praça toda ensolarada

E eu sou toda madrugada

Com face de neve coberta


As pequeninas nada sabem

Fazendo bolhas de sabão

O sentimento tô sentido

Pocando ao alcance da mão


Dez crianças na ciranda

O palhaço cambaleia

No coreto, luz e banda

E eu com sangue-nó nas veias...


Ingrid Dragone


Minha Olivetti

Era um dia de colocar as coisas em seus lugares. Rasguei papéis imprestáveis. Dei coisas inúteis. E engoli muita poeira. Fiquei ainda com alguns livrinhos infantis. Até que me deparei com a máquina de datilografia.

Ela foi um presente de Natal. Pedi quando tinha oito anos. Naquele ano descobri que Papai Noel não existia. Eu vi minha mãe embrulhando a máquina!

Hoje eu sei. Aquela máquina era um indício da minha escolha profissional. Sim, porque naquela época eu já escrevia uns poemas, umas linhas entusiasmadas... E acabei mesmo fazendo as faculdades de letras e de jornalismo...

E aquela máquina... Olhei para ela e tomei a decisão. Seria vendida. Afinal, por que guardar tralhas em casa?

No dia seguinte já havia arranjado um comprador. Ele ainda não podia ter um computador e levaria a Olivetti para que suas meninas pudessem brincar. Pronto. Tudo certo. Venderia por uma bagatela, mas venderia, e era isso o que importava.

Cheguei em casa. Fui logo ao encontro da máquina. Na tentativa de limpá-la, passei álcool. Algumas partes ficaram desbotadas, o que me provocou chateação. Muita chateação. Fora esse acidente, bem que ficou ajeitadinha.

À noite comentei com meu pai que venderia a máquina. E com um jeito, assim, assim, ele falou umas coisas... Que a máquina marcou a minha infância... No futuro valeria muito mais, seria uma relíquia... Eu poderia mostrar aos meus filhos...

Aquilo ficou na minha cabeça. Por que não vender? Máquinas de datilografia ainda não são raridades no mundo... E por que vender? Ela não me incomodava e eu ganharia um dinheiro-pouco que acabaria em quatro ou cinco lanches. Refleti... Ponderei... Não quis mais vendê-la.

Ela estava no chão. Quieta, meio desbotada, mas limpinha, e simpática como sempre. Olhei para ela e senti um carinho imenso. Eu nunca tinha, realmente, decidido vendê-la...


Ingrid Dragone

28 outubro, 2007

Inocência

Enquanto isso, naquele lugarzinho verde, bucólico, Ela e Ele. Ela falava de um castelo onde adormecia todas as noites em seus sonhos. Nesse castelo havia uma torre de tocar o céu, e de lá se podia ver o margear do rio, o borboletear por entre as margaridas, os primeiros raios alourados das frescas manhãs de primavera. Ele falava com gestos largos sobre as aventuras vividas no solitário bosque. Da iminência do movimento em busca da caça. Das proezas do animal que foge, do que arrebata.

Ela e Ele... Divagações... De repente, não mais palavras. De repente, um silêncio que pede, invade, murmura...

O doce bálsamo dos cabelos da menina flana ao vento. O olhar meigo do menino apaga a amplidão límpida do céu. Furtam-se, um ao pulsar do outro. Únicos e anjos. Ao fim de um secreto e comum pensamento, as pupilas escondem-se. O toque. Lábios nos lábios. Nada mais que um beijo... E o amor torna-se carne. Nada mais que um beijo... E os corações se inflamam e os corpos são sensação.


Ingrid Dragone

26 outubro, 2007

Músculos???

Os homens deveriam saber que as ‘melhores’ mulheres preferem os caras inteligentes, bem-humorados e românticos... Mentir é feio: barrigas de ‘tanquinho’ são admiráveis! Mas, ter algo a dizer é imprescindível (putz, é óbvio)! Não se deve, lógico, trabalhar com extremos. Nem todo ‘sarado’ é burro. E nem todo aquele que gosta de leitura e boa música precisa deixar a barriga arrastar no chão.

Equilíbrio. Esse é o segredo. O cara pode marombar, desde que tenha a sensibilidade para reconhecer a beleza de uma mulher. Desde que entenda que puxar uma cadeira ou abrir uma porta em determinados momentos é gentil. Desde que saiba discutir assuntos da atualidade. Que coma o que tem vontade sem medo de estragar a forma adquirida com horas de academia. Que seja espontâneo e sagaz o suficiente para fazer piadinhas sem ser grosseiro. Desde que o repertório vá além de supinos.

As ‘melhores’ mulheres pensam naqueles que serão boas companhias. Músculos murcham, ficam flácidos um dia...

Ingrid Dragone

25 outubro, 2007

Meu sobrinho

Meu sobrinho completa sete meses hoje... Ele tem um olhar tão expressivo... Um olhar que vai acompanhá-lo pelo resto da vida. Tá... Sou coruja mesmo! E continuo dizendo que ninguém pode desmentir a profundidade do olhar desse pequeno... E bebês têm profundidade no olhar? O que um bebê pensa? Olho para ele e fico imaginando como será quando adulto.

Meu sobrinho completa sete meses hoje... Não vejo a hora de caminhar com ele na praça perto da minha casa. Toda vez que ando por lá fico imaginando a cena. Eu segurando a mãozinha dele. Ele com aqueles passinhos incertos e todo risonho (como sempre é). Felicidade em nossas vidas...

24 outubro, 2007

Fazer poesia...


Pinçar dentro de mim as várias faces e sentimentos que escrevem esse ser em que estou... A cada momento me descubro outra, ou como me pareceu agora, mais uma dentro de mim. E quando pego o lápis e faço escorrer dele palavras que inundam de sentidos o papel, formando versos, frases, uma linha, ou uma palavra sozinha, posso estar revelando mais sobre quem sou do que poderia imaginar.

Fazer poesia é recriar o mundo, é fazer dele uma inesgotável fonte daquela água exata de que minha alma tem sede. É transformar uma imagem cristalizada pelo costume e pelo tempo numa folha de papel em branco pronta para ser reescrita.

Fazer poesia é colocar-me diante dos olhos do mundo. Tirar a armadura, descer as máscaras, abrir os sótãos do meu pensamento. É deixar que o meu coração experimente a sensação de se derramar para o outro. Deixar que o outro acolha a minha palavra viva em seu peito, como se fosse sua.


Ingrid Dragone

23 outubro, 2007

Recomendo

  • Torta de morango com limão do café da locadora Vídeo Hobby da Pituba (a combinação parece estranha, mas é uma “dilícia”!).
  • O filme “Prenda-me se for capaz”.
  • Show da banda Tills (visite comunidade no orkut).
  • O uso mais freqüente do dicionário.
  • O temaki (culinária japonesa) do restaurante Ki-Temaki.
  • A praça de alimentação do Salvador Shopping.
  • Os vídeos dos espetáculos da Cia. de dança Riverdance (sapateado irlandês).
  • A música “Angel of Harlem”(U2).
  • O livro “Nove noites”, de Bernardo Carvalho.
  • O vídeo “Bebê Rindo” do You Tube.

Gracinhas cotidianas

Meu ex-professor de Português contou-me que, certa vez, transitando por uma rua, viu afixada numa barraca a placa “Vende peixes”. Com a intenção de preservar a correção da sua língua materna, chamou o responsável pelo anúncio e aconselhou que conjugasse o verbo na terceira pessoa do plural, tempo presente, e a acrescentasse depois a partícula “se”. Decorrido algum tempo, o professor passa pela barraca e lê: “Vendem peixe-se”.

Livros de auto-ajuda

Livros de auto-ajuda ocupam cada vez mais espaço nas prateleiras das livrarias. Não conheço uma pessoa que, pelo menos uma vez, não tenha lido um. O interessante é que esses livros contêm ensinamentos básicos, sabidos por todos. Mesmo assim, viram best sellers. Por que vendem tanto? Acho que é porque sabemos de tudo aquilo, mas precisamos de alguém para nos lembrar.

“Sorria, acorde tendo pensamentos positivos e você atrairá sentimentos positivos durante todo o dia”. Você lê uma frase desse tipo. Então, coloca em prática e pensa que descobriu a pólvora. Fica feliz da vida. Indica aquele livro “ma-ra-vi-lho-so”, que tem mudado a sua vida, para seus amigos, colegas de trabalho e parentes.

Virou moda... Então, diante de tantos títulos, tanta concorrência, os autores têm buscado inovar. Ensinando exercícios. Criando etapas de crescimento e mudanças para a vida pessoal e profissional dos leitores. “O Segredo” está entre essas inovações. Uma releitura de livro de auto-ajuda. Tá bem vai! Foi útil para mim, não vou negar... Hoje, as pessoas andam tão estressadas e cansadas de tudo... Ler uma coisinha animadora numa fase difícil promove bem-estar, não é?

O complicado é, na verdade, a bizarrice da indústria cultural. É constatar nas lojas a mesma bobagem que ocorreu após o lançamento de “O Código Da Vinci”. Outros autores começam a lançar títulos aprofundando e/ou discordando do primeiro livro, pegando a carona do sucesso. Eu já vi um novo livro que fala do “segredo”! Por favor, não vamos perder mais tempo com isso... Afinal, como diria um bom livro de auto-ajuda, “Experimente coisas novas diariamente. A novidade estimula o desenvolvimento do cérebro”.

Ingrid Dragone



22 outubro, 2007

O clima do meu domingo e os versos de Deus


Esse foi o clima do meu domingo... Um sítio. Relógio e celular bem longe. Desligada do mundo por algumas horas, por um dia... Ar livre, reflexão, amigos e música. Vivendo as coisas simples da vida. E sabendo que essas são as melhores coisas.

Olhando (agora) essa foto a inspiração vem e assim escrevo:

A palavra de Deus é a metáfora mais bela e viva se fazendo na maciez da pétala enfeitada pelo brilho do orvalho. No canto de um pássaro que, gentil, alegra a nossa jardineira ao primeiro espreguiçar da manhã. No cheiro que a terra exala quando molhada pelos prantos das nuvens. No sorrir de uma criança que pula nas poças d’água e não se importa com a brancura dos seus sapatos.

Deus escreve, se escreve e se lê no poema do mundo. E o homem nunca conseguirá falar montanhas, praias e jardins como Deus fala. Todos sabemos o que é uma rosa; ninguém a diz tão rosa, tão vermelha, tão macia, tão perfumada, tão linda como toda ela é.

E o poema de Deus não é egoísta. Não se guarda em si e para si. É declamado diante dos nossos olhos, a todo instante. Para sentir os seus versos é, simplesmente, acreditar.




Há alguns meses não pinto... E não por falta de inspiração, mas de tempo. É bom passar uma tarde, ou duas, ou três com a preocupação de tratar dos detalhe de um quadro. Dar textura ao tronco de uma árvore, à parede de uma casa... Ver, a cada dia, que a imagem que você imaginou está deixando de ser uma idéia para se tornar uma janela. É, porque gosto de pintar o que é bom de ver.

Este quadro vendi na minha última (segunda) exposição. Tenho uma saudade desse meu filho...

21 outubro, 2007

Estórias sobre o mundo

Sempre esteve lá. Recebera o nome de Oito. Dia após outro, tecia moedas para o Rei. Vivia em um prédio de pedras. Não havia janelas. De lá não se via o sol ou as cores de abril.Lá não se podia cantar ou fazer poesia. Era proibido amar. Decretada a regra: Quem de amor se preenche, para o trabalho perde as forças.

Nesse ofício de tecer, Oito gastava a vida. Existência que se media pelo pêndulo e pelos sacos de moedas que completava com muita eficiência. Contentava-se em sonhar. De extensas datas, ouvia estórias sobre o mundo. Cores conhecia poucas. Sabia uma borboleta ou um pássaro por descrições ou por uma dimensão estampada num papel.

Os livros falavam de coisas tão belas... Destes ganhava, mensalmente, páginas contadas. Seu mestre de ofício dizia que este era o seu prêmio por trabalhar de forma tão dedicada. Era assim que Oito via o mundo. Através das lentes das metáforas e desenhos toscos, grafados em folhas já amareladas. E tudo se fazia vivo em imaginação.

O sonho começou a crescer no peito, em tamanhos e profundidades que pesavam e alargavam o pulso. A curiosidade era espinho em todo o corpo e alma. Oito era teimoso. Aos poucos foi cavando um pequeno orifício num canto da parede do seu quarto. Com o passar de alguns relógios, mais e mais podia ver o mundo, até então reservado ao papel.

E um dia, com sua janelinha cavada, já de bom tamanho, avistou a Menina dos Olhos. Como era linda em sua simplicidade, e meiga e graciosa. Tinha a pele macia de pétala. Sim, assim sabia que era. O olhar era adocicado, transbordava uma coisa qualquer de paz. As mãos eram leves, e regavam com esmero delicadas flores brancas, que por tanto zelo, pareciam ser suas filhas.

Oito não mais pensava em outra coisa. Passou a tecer moedas com um desgosto de abismos. Por instantes, parecia nunca ter se dedicado a esse trabalho. Passou a tecer de forma errada, com linhas erradas. Não conseguia contentar-se com aquele destino, que há pouco parecia ter sido traçado para ele com tão forte grafite.

Pensou... Para ele restariam calos nas mãos. Cansaços e angústias na alma. Uma caminha de madeira rústica. Uns dois pares de sapatos e calças. Uma caneca matinal... Vivia de mentiras, que aquilo não era viver!

Encontraria a Menina dos Olhos. Atravessaria três horizontes e tantos oceanos se fosse preciso. Não mais estaria sem janelas. Saberia tantas cores e sabores a vida lhe sorrisse. Faria poemas e cantaria canções esquecidas. Passearia para nada e tudo num fim de tarde. Queria amar. E teria filhos! Queria ser o próprio coração.

Então, redigiu boa carta de despedida e a entregou ao Rei. Este fez ameaças. Disse em voz segura que, depois de atravessada a ponte do prédio de pedras, poderia estar a corroer-se de fome e a quebrar-se de frio, e lá não encontraria abrigo novamente.

Oito saiu cheio de certezas. De início, mudou o próprio nome, que não era assim tão próprio. Todos os seus colegas eram também números, e ele, a partir de agora, queria ser pessoa. Escolheu ser Valente.

Após atravessar a ponte, colocou-se todo em postura de desbravador. Derramou os olhos sobre o mundo. Começava a despir-se da prisão. Avistou a Menina dos Olhos. Poderia nunca alcançá-la, mas precisava dar-se uma chance. Ter coragem. A vida estava toda. Estava repleta de poemas e janelas. Era agora aprender a vê-la, que nessa arte ainda era criança. E iniciar o coração nas andanças afora. Chegando. O lugar não sabia exatamente, mas partiria do cais do próprio querer.

Ingrid Dragone


Inaugurando...

O que escrever sobre a "inauguração" de um blog? Bem, posso começar dizendo que nunca havia pensado em ter um blog. Sempre achei que fosse coisa de gente que não tem o que fazer... Posso dizer também que, como profissional da área de comunicação, comecei a sentir a necessidade de falar mais sobre o que penso. Visitando os blogs de alguns amigos fui sendo convencida de que ter um blog seria uma ótima oportunidade - de graça, sem edições, sem censura. Então, aqui estou eu... Rendida a mais um recurso da comunicação, da tecnologia, da internet, do mundo contemporâneo, do "ócio eletrônico"... E não vou mentir. Estou gostando, e muito, da novidade.